sexta-feira, dezembro 21, 2007

Uma Samba

Pena que nunca fui persistente o suficiente para terminar de aprender a tocar meu pequeno violão. Pena que não aprendi a tocar o pequeno violão, nem o violino, nem a percussão... Que dirá meu piano, meu grande sonho o piano de calda... Uma pena. Se eu tivesse um cavaquinho, escreveria agora um gostoso samba. Porque faz um bom tempo que não escrevo - ao menos não assim, sem preocupação com a sintaxe ou repetição das palavras – e hoje eu queria escrever alguma coisa, mas queria que fosse um algo suave e doce como um bom samba...

Lá, laia, laia, laiáá...

domingo, dezembro 02, 2007

"Eu queria escrever um romance que tanto Dostoiésvski quanto Marx; Joiyce e Freud; Stendhal, Tolstói, Proust e Spengler; Faulkner e até o velho mofado Hemingway quisessem ler."

(Norman Mailer)

quinta-feira, novembro 29, 2007

quinta-feira, novembro 15, 2007

Silêncio

Já sentistes medo da tua própria quietude? Já escutastes ecoar, no mais longínquo túnel dos pensamentos, tua própria voz à gritar um silêncio ensurdecedor? Consciência, esse inferno de nós mesmos. O espelho, portal do inferno, do nosso inferno particular. O único que há.
Já acordastes na madrugada e precisastes te tocar pra ter certeza de que existias? Algum dia isso não foi suficiente e implorastes por um olhar alheio, só por garantia?
Já reparastes que ninguém te conhece? Que nem tu te conheces? Que a ninguém tu conheces?
Estás suspenso, meu amor, em alguma dimensão longe da minha.
Certo dia fui desafiada por um [talentoso amigo]...

1ª) Pegar um livro próximo (não vale procurar);
2ª) Ir até a página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs.


O achado...


"A ideologia compõe uma cadeia de pensamentos e justificativas que, em termos sociais, amortece a violência."

COSTA, Fernando Braga da. Homens invisíveis: relatos de uma humilhação social. São Paulo: Globo, 2004


E os meus escolhidos são:

Uma certa estrela em desatino, alguém um tanto contristado, a liberta encantadora, o garoto que cantarola mudamente por trás da cerca alta e que um mais um seja igual a cinco.

sexta-feira, outubro 26, 2007

Cuidado!

Fechem os ouvidos! Os olhos! As bocas!
Principalmente as bocas!

Avisem-na, antes que seja tarde, que há veneno por toda parte.
Contem para ela que o perigo mora entre os corredores, embaixo dos tapetes, no fundo falso das gavetas e na xícara de café.

É o mundo, agora não adianta chorar.

Avisem-na, antes que ela se surpreenda, que haverá gritos, conspirações, mortes por envenenamento e sufocamento.

Cuidado!

Vicia.

Avisem-na, antes que ela se apaixone, que a sensação causa dependência, que logo ela não vai mais querer fazer outra coisa.

Diga a ela que não se mude. Ainda mora na antiga casa, junto aos antigos livros e aos antigos ídolos.

É o mundo, às vezes é necessário chorar.

quinta-feira, outubro 04, 2007

sábado, setembro 22, 2007

"Eu era um jovem, passando fome, bebendo e tentando ser escritor. Nada do que eu lia tinha a ver comigo. Eu tirava livro após livro das estantes. Por que ninguém dizia algo? Por que ninguém gritava? Então, um dia, puxei um livro e o abri, e lá estava."



(Charles Bukowski - 5/6/1979 - Sobre "Pergunte ao Pó" de John Fante)

Conscience



Márcia Pinho

quarta-feira, setembro 19, 2007

Enfim ela parou. Viu-se parada em meio a um grande pátio com chão de ladrilhos e perguntou-se como chegara ali. Lembrou dos passos que dera antes, lembrou do restante do dia. Como correra! - pensou - e descobriu que durante os últimos dezenove anos apenas correra. Em busca de quê? Fugindo do quê? Era o que se perguntava. Então sentiu saudades sinceras de uma pessoa que, embora não a merecesse, um dia mimara muito. E teve sincero asco de outras tantas que também não lhe mereceram. E sentiu um sincero carinho por todos que a amaram incondicionalmente. E, nos passos que a levaram dali, sentiu-se meia vida mais leve.

terça-feira, setembro 11, 2007

As regras do jogo

Existiam, naqueles entremeados de relações, coisas muito ou nada convencionais, havia núcleos e subnúcleos de conselheiros e confidentes, havia beijos na boca, abraços sinceros e abraços forçados, lágrimas, sexo, gargalhadas sinceras e gargalhadas forçadas, havia homossexualidade, hobbies em comum que aproximavam e proximidades sem tripé de apoio algum, havia muitas histórias pra contar, havia muita inteligência, mas também atitudes impensadas, infundadas. Havia brindes.
Havia paixões. De todos os tipos formas, tamanhos, cores e texturas. O primeiro gostava da segunda que sabia e fingia que não sabia, a segunda gostava do terceiro que também era amado pela quarta, amada pelo quinto, a quarta sabia e não queria e sobre o terceiro, se sabia ou do que queria, ninguém nunca sabia. O sexto amava o sétimo. Também se sabia pouco ou quase nada do sétimo e da oitava, e o quinto, além de amar a quarta, também amava todo mundo.
Havia um mundo dentro e um fora dali, havia 16 olhos, olhando para 32 mundos diferentes. Cada um poderia sair no momento em que desejasse, não havia pregas nem correntes, mas sair poderia causar arrependimento eterno, embora ficar pudesse doer, e muito. Mas o importante era isso. O importante era sentir.

sábado, setembro 08, 2007

Acordara mais cedo que o comum. A angústia enchia o estômago. Era ânsia de vômito o que sentia. Embora a noite anterior tivesse sido agradável, não fora agradável o bastante para modificar aquela sensação que, não adiantava, não havia palavra que descrevesse melhor, angústia.
Lágrimas, às vezes tem a impressão de que nunca vão acabar, vêm de uma fonte tão eterna quanto o tempo que durar a dona delas. Seu maior medo? Deixar que o que lhe é externo interfira no que lhe é mais sagrado, o interno. Pergunta-se sempre quando tudo vai acabar. Pergunta-se pelo dia em que conseguirá sorrir sem culpa. A culpa inerente de ser feliz.
Caída na escada pôde ver a unha de um dos dedos do pé esquerdo sangrar sob a meia branca. Levantou-se de um só fôlego. Ninguém virá me ajuntar - pensou - a dor também pode ser controlada. Sem mancar, subiu o resto dos degraus. Lavou a própria meia, enfaixou o próprio dedo e nunca ninguém ficou sabendo disso.

sábado, setembro 01, 2007

Amor

O amor pode ser o Papai Noel
Pode ser Deus
Pode ser um vibrador
Pode ser a pessoa fascinante bem ao seu lado
Pode ser seu peixe
O travesseiro
Pode ser o sol
Ou aquele livro especial do qual no fundo você nem gosta
Pode ser sua mãe
Pode ser o pôster na sua parede
Um filme triste
Pode ser o feijão gelado na geladeira
A escolha foge ao controle.

Eu não sei. Ninguém sabe. Nós nunca saberemos. E isso também pode ser o amor.

terça-feira, agosto 28, 2007

A Dor

Não havia canto do quarto em que, agachada, fizesse passar aquela horripilante dor. Não havia lado nem posição. Não adiantava gritar, fechar os olhos, acalmar a mente. Não adiantava chorar. Não adiantaria chamar pela mãe, muito menos pelo pai, tão longe estava. Não adiantou urinar, tomar um banho morno. Tentou manter-se serena, usar a força da mente. Tentou gritar à própria cabeça que parasse, que parasse de girar. Mas não adiantava porque quem girava, na verdade, não era ela, era o mundo. Na escuridão a luz era intensa. Lembrou-se do sol, de toda aquela luz arbitrária, que entrava em todos os lugares, em todas as frestas, em todos os quartos. Mas de onde vinha a maldita claridade àquela hora da noite? Abriu os olhos e se deu conta de que, tal como no romance de Saramago, a claridade estava do lado de dentro das pálpebras. Não adiantava gemer, não adiantou bater três vezes com a cabeça na parede. Não queria, não queria por nada nesse mundo. Resistiu até onde pôde. Finalmente levantou-se, foi até a cozinha, ainda mais uma vez olhou receosa as bolinhas brancas. Engoliu o grito de ‘parem o mundo’, engoliu o grito com água e duas bolinhas brancas. Sentiu a droga descendo por sua garganta; veio a ânsia, o arrependimento imediato, depois o conformismo. Enfim, rendera-se. Vil animal feito de fraquezas; tão pequeno, tão medíocre, não pôde com suas próprias dores... Parada em frente à pia da cozinha começava já a gozar do alívio. Deitou-se, ainda pôde perceber o mundo que desacelerava. Adormeceu.

sábado, agosto 18, 2007

"...E, libertos de todas as restrições, realizaremos na arte o Universo. A vida será, enfim, vivida na sua profunda realidade estética. O próprio Amor é uma função da arte, porque realiza a unidade integral do Todo infinito pela magia das formas do ser amado. No universalismo da arte estão a sua força e a sua eternidade. Para sermos universais façamos de todas as nossas sensações expressões estéticas, que nos levem a à ansiada unidade cósmica. Que a arte seja fiel a si mesma, renuncie ao particular e faça cessar por instantes a dolorosa tragédia do espírito humano desvairado do grande exílio da separação do Todo, e nos transporte pelos sentimentos vagos das formas, das cores, dos sons, dos tatos e dos sabores à nossa gloriosa fusão no Universo."

Graça Aranha - 1922
Aqueles versinhos tão doces e bobinhos foram perdidos há muito tempo, dentro de um velho caderno. Procurou-os umas duas vezes sem muito entusiasmo e não os achou. Depois esqueceu, aposentou o velho caderninho e lá ficaram os versinhos, dormindo, como uma bela adormecida um pouco feia.
Coitados dos versinhos! É certo que não eram versos da mais esplêndida beleza, nem foram escritos pelo mais esplêndido poeta. Eram versos bem bobinhos, bem melosos, bem clichês... Eram versinhos desses que se escreve em cartinhas apaixonadas na quinta série, ou na agenda - em códigos de estrelas e bolinhas -, mas eram tão puros, tão sinceros. Merecem sim um pouquinho de piedade por estarem perdidos, pois naquele momento, naqueles anos, naquela época, foram sentidos com toda a capacidade de um coraçãzinho partido.
Os versinhos escondidos, tão secretos, tão denunciadores dos mais íntimos sentimentos, perdidos agora, ainda, talvez para sempre, nas páginas amareladas de um caderno velho, ocultos, como deveriam mesmo ser.

terça-feira, agosto 14, 2007

É proibido proibir

"A mãe da virgem diz que não.
E o anúncio da televisão.
E estava escrito no portão.
E o maestro ergueu o dedo.
E além da porta há o porteiro, sim.
Eu digo não.
Eu digo não ao não.
Eu digo.
É proibido proibir.
É proibido proibir.
É proibido proibir.
É proibido proibir.

Me dê um beijo, meu amor
Eles estão nos esperando
Os automóveis ardem em chamas
Derrubar as prateleiras
As estantes, as estátuas
As vidraças, louças, livros, sim
Eu digo sim
Eu digo não ao não
Eu digo
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir."


Caetano Veloso

In Light To Enlight



Jankrishna Dames

14 de Agosto

Vontade de ir embora, de pôr a mochila nas costas e enveredar-se por qualquer estrada alucinante, pedir carona para onde Deus quiser levar e, em uma ausência qualquer de Deus, ir para onde o vento ou as próprias pernas a levarem.
Saudades do sol e daquele céu azul que contemplava deitada na cama antiga da casa antiga, das quais nem se lembra mais. Saudades daquelas palmeiras altas que podia avistar deitada lá, dessas sim se lembra com nitidez. Saudades das curas vespertinas das angústias diárias.
Vontade de reviver aquele tempo que só viveu nas loucas tardes imaginárias, fruto de pouquíssima ociosidade na infância. Falta do abraço que não teve e do cheirinho de pão que nos finais de tarde não havia.
Desejo de não ter ao que desejar se prender, para que venham sempre a surpresa, os tombos e a satisfação risonha de mais uma viagem irresponsável.
Saudades do vento da estrada esvoaçando os cabelos que nunca saíram de onde sempre estiveram: em cima da cabeça.

terça-feira, agosto 07, 2007

Martin Riwnyj

Lágrimas ocultas

"Se me ponho a cismar em outras eras
em que ri e cantei, em que era q’rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida…

E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago…
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim…

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!"

(Florbela Espanca)

segunda-feira, agosto 06, 2007

Para uma menina com uma flor

"Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, que aliás você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.


E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras. E porque você quando sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre num nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, como uma santa moderna, e anda lento, a fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der aquela paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.


E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta mas não concorda porque é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara– na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.


E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as outras mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, “Minha namorada”, a fim de que, quando eu morrer, você se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse, cantando sem voz aquele pedaço em que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.


E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora – tão purinha entre as marias-sem-vergonha – a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nestas montanhas recortadas pela mão presciente de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa. E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos – eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor."


(Vinicius de Moraes)

O Estratagema do Amor

"- A mais elevada de todas as loucuras - dizia ela -, é envergonharmo-nos das inclinações que recebemos da natureza; e fazer pouco dum qualquer indivíduo que tem gostos singulares, é absolutamente tão bárbaro como o seria mofar dum homem ou duma mulher saído zarolho ou coxo do seio da mãe, mas insinuar estes princípios razoáveis a néscios é empreender parar o curso dos astros. Existe uma espécie de prazer para o orgulho em rir dos efeitos que não se tem, e estes gozos são tão doces ao homem e particularmente aos imbecis, que é muito raro vê-los renunciar-lhes… Isso provoca, aliás, maldades, frios ditos de espírito, fracos trocadilhos, e para a sociedade, ou seja para uma colecção de seres que o tédio junta e que a estupidez modifica, é tão doce falar duas ou três horas sem nada dizer, tão delicioso brilhar à custa dos outros e anunciar estigmatizando-o um vício que se está muito longe de ter… é uma espécie de elogio que se pronuncia tacticamente sobre si mesmo; por este preço consentem até em se unir aos outros, em fazer cabala para esmagar o indivíduo cujo grande erro é o de não pensar como o comum dos mortais, e retiram-se para casa inchados do espírito que mostraram, quando só provaram radicalmente por uma tal conduta pedantismo e tolice.
Assim pensava a Menina de Villebranche..."


(Marquês de Sade )

domingo, agosto 05, 2007

agosto/2

Lembra do que eu disse sobre os meus meses de agosto?
Mal começou e já começou.

Rizoma

"...faça rizoma e não raiz, nunca plante! Não semeie, pique! Não seja nem uno nem múltiplo, seja multiplicidade! Faça a linha e nunca o ponto! A velocidade transforma o ponto em linha! Seja rápido, mesmo parado! Linha de chance, jogo de cintura, linha de fuga. Nunca suscite um General em você! Nunca idéias justas, justo uma idéia (Godard). Tenha idéias curtas. Faça mapas, nunca fotos nem desenhos. Seja a pantera cor-de-rosa e que vossos amores sejam como a vespa e a orquídea, o gato e o babuíno..."

sexta-feira, julho 20, 2007

Vindo naquela locomoção. Fétida. Fétida locomoção. Cabeça ao vidro, pensamentos que correm contra o mundo que corre do lado da janela. Uma garota; não pude ver se era bonita. Normal. Uma garota normal que vomitava. Ela vomitou, três vezes, ali ao lado. As pessoas em volta se forçavam à naturalidade. Estavam todos mudos. Fingiam que nada acontecia. Pessoas. Pessoas que fingiam. Desci, fedia muito lá dentro. Não consegui fingir que não sentia. Como fingir ao próprio mim? O mundo do lado de fora corria muito. Todos corriam demais. Ninguém se dava conta de que o mundo inteiro estava lá, ali batendo na cara. O mundo. O mundo inteiro tocando a ponta do nariz e só o que todos enxergam é a ponta do nariz. Queria que o mundo parasse. Ele faz muito barulho. Demasiado barulho, você poderia parar para eu descer? Mas para onde eu iria? Alguém que cheira demais, escuta muito mais alto, não enxerga o suficiente, pensa muito. Tanto que a cabeça dói. A dói que a cabeça alguém. Passos e pensamentos. Duas quadras a mais de pensamentos hoje porque o ônibus fedia muito. Caminha com as mãos no bolso. Sempre. Sem se dar conta. Mais alguns passos. Muitos. As mãos quentes. As mãos absurdamente quentes tocam a gelada chave, giram a maçaneta. Nesse momento, lá do fundo, muito fundo, vem um grito. Parem o mundo. O grito de parem o mundo. Engole. Com saliva. Engole o grito com saliva e vai dormir.

quinta-feira, julho 19, 2007

O Cinismo

Hoje Deus acordou debochado

Depois de condescender tantos dias com a minha tristeza

Depois de tanta chuva

De tanto frio

Da umidade

Bolor

De repente

Vejam que absurdo

Há algo em descompasso

Tudo fica lindo

O céu anil

Límpido

O perfume das flores

Parece-me

Cinismo.

domingo, julho 15, 2007

E se nada mais for risível,
Relevante,
Inspirador,
Instigante,
Calmante,
Apaixonante,
Laxante,
Se nada mais valer à pena?

E se eu assustar,
Espantar,
Espancar,
Errar,
Duvidar,
Chorar,
Envergonhar,
Estuprar: os sonhos?

E se o que eu escrevo não for poesia,
Nem prosa,
Nem conto,
Nem recanto,
Não crônica,
Nem aguda?

E se eu quiser dizer e não souber como,
Não souber se,
Nem onde,
E o porquê,
Eu gostaria que me dissesse se eu digo ou se eu calo,
Se me visto de santa ou de Frida Kahlo.

Eu sei fazer os dois papéis, mas gostaria que dissesse qual das duas personagens me cai melhor.

E se eu repetir as palavras,
Se eu não souber rimar,
Se eu colocar o mim a conjugar te amo,
Você me perdoa?
Você ainda vai sorrir pra mim?

sábado, junho 30, 2007

Noite de Natal

"Fernando Silva dirige um hospital para crianças, em Manágua.
Na véspera do Natal, ficou trabalhando até muito tarde. Os foguetes espocavam e os fogos de artifício começavam a iluminar o céu quando Fernando decidiu ir embora. Em casa, esperavam por ele para festejar.
Fez um útimo percorrido pelas salas, vendo se tudo ficava em ordem, e estava nessas quando sentiu que passos o seguiam. Passos de algodão: virou e descobriu que um dos doentinhos andava atrás dele. Na penúmbra, reconheceu-o. Era um menino que estava sozinho.
Fernando reconheceu sua cara marcada pela morte e aqueles olhos que pediam desculpas, ou talvez pedissem licença.
Fernando aproximou-se e o menino roçou-o com a mão:
- Diga para... - sussurrou o menino. - Diga para alguém que eu estou aqui."

(Eduardo Galeano)

sexta-feira, junho 22, 2007

A agulha perfura cuidadosamente a epiderme. Arbitrariamente, sem pedir licença, vai rasgando essa fina camada que separa o interno puro e límpido, do externo empoeirado, bacterizado. Furos nas pernas, nos ombros, nas costas, na cabeça, na pélvis. Furos que não doem.
Os olhos que se fecham, o corpo que relaxa e que esquece do mundo ali em baixo, do lado de fora da janela. E as agulhas e os furos e o fogo. A brasa sem piedade que aquece até o quase insuportável, a vermelhidão, o estupor e, enfim, o alívio. E o ser-humano ali em frente, estendido na cama alva, tão frágil, tão fortaleza, tanta vida, tanta fragilidade...
As lágrimas e o clima doentio que, por vezes, no início, obscurecem a sala tão clara e arejada, transformam-se logo em suspiros e sorrisos agradecidos de quem já não sente mais a dor. E as conversas de comadres lado-a-lado, maca-a-maca, dor-a-dor já livraram muita gente da depressão e dos pensamentos de quem quer matar-se.

quarta-feira, junho 13, 2007

É ela quem acende a luz do corredor todos os dias. Às vezes também é ela quem apaga. Ela e aquele lugar têm uma tênue relação, como um fino fio de ligamento de destinos. Durante a segunda parte da infância e adolescência lembrava-se desse prédio. Vinha-lhe à mente uma entrada escura e uma estreita sala de espera. Era a sala de espera da psicóloga na qual seus pais as levavam – a ela e a irmã – quando pequeninas. Depois mudou-se, a inevitável separação dos pais, a vida seguiu, as pessoas cresceram, mudaram também, o lugar sempre vinha à mente.
Aos dezessete anos ela passava por uma fase de grandes modificações na vida. Tantas coisas realizadas nesse meio tempo... (A menininha da quinta série nem poderia imaginar). Estava agora trabalhando e o chefe decidiu que não precisava mais dos seus serviços de telefonista, mas ele gostava muito dela. Se há uma coisa que sempre fez bem foi enganar as pessoas e fazê-las acreditar piamente na sua competência. Na mesma conversa em que ele a dispensou, deu-lhe também um papelzinho com telefone e endereço de um conhecido que procurava uma funcionária. Desconfiou do endereço, mas calou. Ninguém poderia entender que aquilo no fundo tinha todo um significado.
No primeiro dia acreditou que não se adaptaria, e isso já faz quase dois anos. Aquele lugar a viu desistir da idéia de ser psicóloga, a viu decidir ser jornalista, a viu passar no vestibular, chorar alegrias e decepções familiares. Já testemunhou três namoros mal sucedidos, já a viu enraivecida com o patronato, já a viu ficar em exame, trabalhar até às nove da noite, chegar meia-hora atrasada, viu o início do seu primeiro livro e desconfio que ainda verá muito mais. Lá aprendeu a lidar com seres-humanos, tocar neles, ajudá-los, ser uma pessoa humilde. Foi lá que entendeu o que o velho Quintana quis dizer ao escrever que não importa a fome na China, o nossos calos sempre doem mais.
É incompreensível para qualquer um, mas para ela aquele lugar tem um “q” de seu crescimento. Existe, entre ela e ele, uma ligação que o destino não deixa romper. Existe algo que não deve ser quebrado até que ela enfim esteja pronta. E esse dia, parece, não tardará.

sexta-feira, junho 08, 2007

Vinha subindo a rua central, pensando em alguma coisa que no momento foge à memória da narradora. Pensava em coisas variadas, sem muita importância. Ou talvez tivesse sim alguma importância o que a moça pensava naquela hora, porque naqueles dias ela andava preocupada com alguns assuntos sérios. Vinha devagar pela calçada, passou os olhos com rapidez pelo chafariz do hotel, voltou a olhar para os pés, mas em seguida olhou novamente para a água normativamente turbulenta do ornamento de jardim do hotel. Tão rápido como são os pensamentos, pensou, olhando para as ondas que os jatos causavam na água estática abaixo, que era em momentos assim que grandes gênios haviam tido relâmpagos de genialidade. Ainda dentro da mesma fração de instante insistiu um pouco mais no olhar fixado na água. Nada. Vai ver ela não era mesmo um gênio. Vai ver era só alguém comum, subindo a rua central.

La Valse (1889-1905)



Não é preciso dizer muito quando se trata da obra de Camille Claudel, ela grita por si só. Mas para descrever a mulher que foi Camille, é imprescindível citar talento, obstinação, dedicação e incompreensão. Toda a tristeza e intensidade da sua alma, ela pôs em suas esculturas, quase como uma autobiografia.
Levante devagarzinho, calma, sem afobação, acenda a luz, não, não acenda pode chamar a atenção. Enrole-se no cobertor de lã, está frio, aperte o botãozinho tentando abafar o clic denunciador, abaixe o volume das caixinhas de som para que ninguém ouça a musiquinha também denunciadora, quietinha, shuhh, sem barulho, se a mãe acorda, vem logo perguntar porque fica até tão tarde em frente ao computador. Tem insônia coitadinha, gosta tanto de escrever e queria conversar com aquele amigo que só entra de madrugada no msn. Escreva tentando não digitar com muita força, senão esqueça. Os olhos vão começando a pesar, as palavras vão saindo errraaads, desliga tudo, deita, vai dormir, amanhã não precisa acordar cedo.

domingo, junho 03, 2007

"Eu tava triste, tristinho.
Mais sem graça que a top model magrela
na passarela.
Eu tava só, sozinho.
Mais solitário que um paulistano,
que um canastrão na hora que cai o pano,
que um vilão de filme mexicano.
Tava mais bobo que banda de rock,
que um palhaço do circo Vostok.

Mas ontem eu recebi um telegrama,
era você de Aracaju ou do Alabama.
Dizendo nego, sinta-se feliz
porque no mundo tem alguém que diz:



Que muito te ama, que tanto te ama,
que muito, muito te ama, que tanto te ama




Por isso hoje eu acordei
com uma vontade danada
de mandar flores ao delegado,
de bater na porta do vizinho
e desejar bom dia,
de beijar o português da padaria..."


(Zeca Baleiro)

Deixe estar

Deixe-me gritar, surtar, ensurdecer quem está em volta. Mas não esqueça que às vezes a minha loucura é calar. Permita que eu levante durante a madrugada e desça as escadas pra entoar alto, no meio da rua, uma música que me emociona. Não ligue se eu gosto de passear pelas ruas do centro da cidade de noite e observar as coisas em volta. Eu gosto de observar as coisas, aprendo muito com elas. Não pergunte se estou triste, porque isso me entristece. Aprenda a ler meus pensamentos, isso às vezes vai me irritar, mas na maior parte do tempo vai facilitar muito as coisas. Há dias em que quero fazer um filho só pra escapar da rotina, têm outros em que a rotina me consola muito. E nesses dias, não necessariamente eu estou mal. Aprenda que eu não sou normal. Aprenda que a minha anormalidade me aquieta e por isso pareço tão bem, pareço assim porque o sou. Porque treinei muito para ser assim. Deixe eu repetir as palavras. Deixe estar por que na maioria das vezes o que eu falo não tem coerência. Me deixa dormir aí hoje?
Sorria menina, sorria. Mas não precisa gargalhar se não quiser, se isso, nesse momento, não for espontâneo. Sorria apenas em seu estado de espírito, isso basta. Esteja em paz com você, esqueça os outros. Não há a mínima necessidade de provar nada para ninguém.
Olhe em volta, uma vida bem legal a sua, heim? Pessoas animadas que te chamam pra dançar. Não precisa ir se não quiser, mas se sinta bem por ser amada. Valorize tudo isso; valorize cada pensamento que alguém dedicou a você. Diga às pessoas que estão envolta que elas são os tesouros da sua vida, que é com elas que está todo o seu valor. Mas não precisa concordar com tudo sempre se não quiser, o importante é o que se sente.

domingo, maio 27, 2007

"Uh... Nunca disse, te amo
Nunca disse, te estranho
Nem importa mais"
"Tarde turquesa
Quarenta graus
Talvez porque você não esteja
tudo lateja
Tarde sem nuvem
Cinqüenta graus
Talvez por sua ausência
tudo derreta
Noite sem ninguém
Nada se mexe
Eu sonho nosso amor a sério
E você em outro hemisfério
Enquanto tudo derrete
Enquanto tudo derrete
Enquanto tudo parece
Derreter"

(Adriana Calcanhoto)

terça-feira, maio 22, 2007

- Maria Inconstância é muito incostante.
"Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço
que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
e a outra metade um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fui
e a outra metade não sei"

domingo, maio 20, 2007

Maria Inconstância

Maria Inconstância já não é mais uma adolescente, mas também ainda não pode ser chamada de mulher, está naquela fase em que as pessoas lhe referem por “moça”.
Ela é bonita, já houve até os que lhe achavam muito linda, mas existe entre as pessoas do seu círculo social um consenso de que ela poderia ser mais magra.
A família de Inconstância nunca foi como as dos comerciais de margarina, é uma família tão cheia de pormenores enrolados que mesmo ela, quando vai contar sua história de vida para alguém, se perde. Existem aí alguns pontos obscuros. É certo que são poucos, mas fazem muita falta para o bom entendimento de certos caminhos do destino familiar. Mas é muito raro pegar Inconstância pensando nisso. Ela costuma tentar se convencer de que é uma pessoa bem resolvida e pessoas bem resolvidas não ficam remoendo o passado.
Ela, caso lhes interesse saber, tem três irmãos. Um ela nunca vê, embora se culpe por isso a cada vez que lembra; uma é um pouco emo, mas Inconstância não se preocupa muito com isso, pois crê que é apenas uma fase; a terceira já foi muito sua amiga, foi quase como uma mãe em algumas épocas da vida, mas agora essa terceira encontrou Jesus e está perdendo um pouco a família. Inconstância não consegue ignorar isso e fica realmente muito brava. Inconstância não acredita em Deus e acha que a Igreja é o ópio do povo.
Mariazinha, como a sua mãe costumava lhe chamar na infância, descobriu desde cedo que seus valores familiares e seus óculos lhe impediriam de ser bem aceita nos grupinhos mais legais da escola. Então, ela disse pra si mesma que não precisava de amigos idiotas e foi uma criança sozinha e meio depressiva. Na sétima série já havia lido todos os livros da casa e grande parte dos da pequena biblioteca da escola pública, que ficava em um morro cheio de vegetação na periferia.
Maria Inconstância fantasiava outras vidas na sua cabeça, ela chamava isso de “brincar”. Nas vidas que inventava, às vezes imaginava que toda a família tinha morrido ou que o menino da oitava série finalmente tinha declarado que sempre a amara, ou que ela descobria de repente que era milionária. Depois ela se culpava e rezava muito para que Deus perdoasse pensamentos tão pecaminosos. Mas isso foi antes de ela deixar de acreditar em Deus.
Faz pouco tempo, ela conseguiu sentir aquilo que já sabia há muito tempo. Descobriu que não precisava combinar as roupas com os calçados, conseguiu finalmente se convencer de que as pessoas que queria ter envolta, eram as que gostavam de coisas muito coloridas. E que não queria namorados que a admirassem pelas roupas que usava.
Inconstância está se achando muito intelectual ultimamente, está se sentindo como queria se sentir. Está começando a ser aquilo que trabalhou mentalmente toda a vida para ser – não em aspectos materiais, mas intelectuais. Ela não sente mais vontade de ver televisão e não suporta mais comentários preconceituosos; não é uma pessoa intolerante, gosta de admirar pessoas com conhecimentos adquiridos em lugares que não a academia, gosta das pessoas que sabem mesmo é da vida; ela tem lido mais e entendido mais o que lê; está começando a entender de cinema e no seu rádio o que toca são músicas de qualidade.
Ela acha que está superando aquela enorme carência que sempre teve e nunca admitiu. Mas sabe que ainda não perdeu a mania de se expor mais que o necessário para chamar a atenção. Maria Inconstância acha essa sua atitude muito infantil e acredita que às vezes seus amigos enjoam deste seu ego disfarçadamente estufado, mas outras vezes ela tem certeza de que é tudo produto da sua fértil imaginação.

domingo, maio 13, 2007

Hoje é um daqueles dias em que algo lhe dói. Tudo dói, mas o quê não é identificável. Hoje é um daqueles dias de inércia, do corpo pesado, do pulso doendo. Hoje os problemas latejam forte na mente, mas o autocontrole os suprime e o que deveria incomodar deixa apenas a sensação angustiante de que há algo fora do lugar. O sono acumulado e irrecuperável, para sempre perdido, transformando-se – já que nada no mundo se perde – em uma aguda dor de cabeça. E ela é tão jovem e tem ainda a vida toda para utilizar-se do braço que chateia, e as enxaquecas e o sono que lhe deixa desdenhosa da vida. E, no entanto, Nunca lhe vêem chorar.

sexta-feira, maio 11, 2007

Cores de Frida Kahlo


Frida Kahlo The Love Embrace of the Universe, the Earth, Myself, Diego and Señor Xólotl, 1949

quarta-feira, maio 09, 2007

A ruela estava estática, apática. Grãos de poeira pintavam o ar e no chão, a sujeira. A brisa soprava me lembrando que ali havia algo real. E aquele alarme que gritava: “SOLIDÃO, SOLIDÃO”. E a esquina que me trouxe de volta à vida.

quarta-feira, maio 02, 2007

Brincar de Viver

Quem me chamou
Quem vai querer voltar pro ninho
E redescobrir seu lugar
Pra retornar

E enfrentar o dia-a-dia
Reaprender a sonhar
Você verá que é mesmo assim, que a história não tem fim
Continua sempre que você responde sim à sua imaginação

A arte de sorrir cada vez que o mundo diz não
Você verá que a emoção começa agora
Agora é brincar de viver
E não esquecer, ninguém é o centro do universo
Que assim é maior o prazer

Você verá que é mesmo assim, que a história não tem fim
Continua sempre que você responde sim à sua imaginação

E eu desejo amar todos que eu cruzar pelo meu caminho
Como eu sou feliz, eu quero ver feliz
Quem andar comigo

Você verá que é mesmo assim, que a história não tem fim
Continua sempre que você responde sim à sua imaginação
A arte de sorrir cada vez que o mundo diz não.


Guilherme Arantes

sexta-feira, abril 27, 2007

Ela a abraçava como quem abraça a última de todas as esperanças da vida. Estavam sentadas em frente a mim e a senhora magra abraçava aquela garotinha também muito magra como quem agarra um urso de pelúcia. Os olhos da menina representavam um elemento significativo na constituição da cena, expressivos como se vindo de alguma fotografia célebre dos tempos das fotografias célebres.
Imaginei porque aquela mãe estava tão desesperada, porque apertava a menina com tamanha intensidade.
A garotinha parecia entender; Embora pequenina, era certo que compreendia perfeitamente aquela carência, porque cedia com resignação emprestando o pequenino ombro para o encaixe do queixo materno.
Sorri para ela. Os olhos eram muito tristes. Pensei em fazer-lhe sorrir nem que fosse por uma fração de segundo. Ela não respondeu o intento, seus olhos me encaravam loucamente, miravam diretamente os meus, perpassavam-me, tocavam-me a alma. O que ela pensava?
Era hora de sair, nunca mais às veria, olhei ainda uma vez para trás, o olhar da garota sob os braços da mãe me acompanhava.

sábado, abril 21, 2007


Os sem-remédios da vida minha

Não há remédio, o mundo vai sempre te magoar. Você sempre vai acreditar em alguma coisa que não existe ou que não é realmente da forma como lhe disseram. As pessoas vão sempre mentir para você, nem todas irão, mas com certeza muitas delas; E você vai novamente, como em tantas outras ocasiões, sentar, chorar, se lamentar, meditar sobre o ocorrido, jurar que nunca mais deixará as ilusões se apossarem do seu lado racional, tomar um copo de água com açúcar – dizem que acalma, eu acho que engorda. Depois vai esquecer, porque todos, uns mais outros menos, sofremos desse mal, o mal da perda de memória recente; E vai sair a viver novamente e, não com menor velocidade, mais uma vez estará chorando sentado.
Então haverá duas possibilidades, fechar-se ao mundo cruel e agir como ele, andando por aí infeliz a despedaçar corações desavisados – bem conheço os que o fazem – ou fingir-se de desconhecedor das engrenagens da vida tentando ser feliz em cada nova oportunidade, iludindo-se sim com a possibilidade de desta vez ser eterno, sem lágrimas, sem hematomas, sem angústias e sendo feliz, ao menos enquanto a ilusão durar.

quinta-feira, abril 05, 2007

Pela tarde o sentimento era de solidão. Os pensamentos ecoavam dentro da cabeça com tamanha vibração que doíam, enjoavam, ela não agüentava mais o som dos próprios devaneios.
Foi para casa, tomou um banho demorado, colocou a melhor roupa, o melhor perfume. Ela é assim, quando quer sentir-se melhor, perfuma-se.
Desceu as escadas e já estava fora quando o telefone tocou anunciando que o resto da noite seria ainda mais solitária. Ficou triste, mas resolveu seguir, ela é assim, sempre persiste, lá em frente sempre pode encontrar algo que valha a pena. E ademais, a noite que vinha chegando prometia ser bonita, seria um desperdício voltar.
Decidiu ir ao cinema, o filme não parecia ser dos melhores, seria apenas uma distração, um passatempo.
Restava-lhe ainda uma hora até o início da sessão, passeou um pouco pelos corredores, ficou observando cada um dos que passavam, avistou alguns rostos conhecidos que não a viram, ou que a viram e não a reconheceram, meditou sobre quantas pessoas já conheceu, sentiu inflar-lhe o ego pela capacidade de fazer amizades, tecer teias de convivências sociais. Estar sozinha neste momento em especial era quase por opção, com certeza não lhe faltariam "já estou a caminho" para alguns telefonemas que chamassem companhias, ou ao menos preferia acreditar nisso.
Deixou que o resto do tempo transcorresse na livraria enquanto lia as últimas páginas de um livro que devolvera naquela semana sem tê-lo terminado.
Faltando cinco minutos desceu à sala de cinema. Não se arrependeu em momento algum, gargalhou como criança, como a muito não fazia, como não faria se estivesse acompanhada, sorriu com sinceridade.
Bem devagar, sob a garoa, por entre as ruas do centro da cidade, foi-se indo embora. Pensou no jovem mago e em menos de dois segundo já o avistou. Foi inevitável conter um largo sorriso. Ela nunca tem certeza de que ele se lembra dela, tem a impressão de que em cada uma das muitas vezes que o encontrou caminhando pelas noites da cidade, ele falava com uma mulher diferente, e o mais fascinante, conhecia-a tão bem. Como em cada uma das vezes, dedicou-lhe poesias, sim, esse era o seu ofício, o de poeta, mas sempre soava-lhe profundo e sincero. Mandou-a sorrir, caçoou novamente do rubor do seu rosto, disse-lhe que a fizessem muito feliz, porque para isso tinha vindo ao mundo. Despediu-se com um gostoso abraço e seguiu caminhando, passou pela praça, uma roda de mendigos tocavam violão animadamente, lembrou-se que nem ao menos sabia o nome do mago e pensou que essa noite, como também em todas as anteriores, poderia ser a última vez que o via. Afinal são assim os nômades, um dia se vão e deixam saudades.
Voltou para casa com a sensação de ter achado aquilo que fora procurar, aquilo que lá na frente valeria a pena.
Sobre a cama encontrou uma caixa de bombons e um bilhete da mãe, Feliz páscoa e não como tudo de uma vez, sentiu-se novamente uma criança, era assim que a mãe ainda a via, como uma criança matreira.
Respirou fundo, a lembrança de um perfume, sentiu-se feliz.

quarta-feira, março 28, 2007


A Aranha

Lá, onde passo meus dias, um após outro e depois outro, no lugar onde eu trabalho, fiz uma amiga um dia destes. Estava eu, limpando o local como faço sempre no final de todos os dias e, como que de repente, surge por trás do armarinho branco da sala da patroa uma aranha de tamanho médio e muito preta.
Minha intenção primeira foi dar-lhe uma vassourada, como seria de se esperar na minha posição de encarregada da limpeza, mas surgiu-me a questão, por quê?
Fiquei ali, cerca de meio minuto observando a criaturinha asquerosa que trabalhava dedicadamente em seu ofício de fiar teias, e confesso, tive pena.
Tivesse, meu raro leitor, passado um só motivo para fazê-lo no devanear de meus pensamentos, e eu a teria esmagado. Mas não passou. Ao invés disso fiquei lá pensando no quão maldosas podem ser as pessoas sem mesmo se darem conta do quanto.
Pobre aranhazinha, tão solitária. Não é fácil nesse mundo ser preta, desprovida de vis metais e mãe solteira. Ela trabalhava muito e com afinco, mais do que eu naquela hora, e certamente ganhava ainda menos do que eu. E assim, sem mais nem menos, apareceria alguém e dar-lhe-ia uma vassourada impiedosa sem nem ao menos deixar-lhe proferir umas quantas últimas palavras. E aí me pus a pensar em qual seriam suas últimas palavras se eu, supondo que dominasse seu idioma, lhe perguntasse. Ela poderia pedir-me que desse lembranças à mãe da qual se perdera já a um bom tempo lá pelas bandas da outra extremidade da sala; ou poderia gritar efusivamente que morre sim, mas morre honrada, virgem; ou poderia lamentar-se pelo mesmo motivo.
Resolvi então não mata-la, se o motivo de uma morte angustiante fosse esse último sugerido, dar-lhe-ia mais um tempo para que aproveitasse sim as coisas boas da sua vida de aranha formosa. E assim travamos um trato, eu não a mataria e ela me prometeria que, daqui por diante, sairia por aí a ser feliz.
Antes que eu me virasse para continuar com a varrição, fiz-lhe ainda uma recomendação, não apareças por aí quando a patroa estiver na sala.

domingo, março 25, 2007


Eu escreveria algo bem melancólico,
teclaria ao ritmo da música que ouço agora,
mas o que sinto é por demais assunto meu.
Ao invés disso fico aqui,
Escrevendo e apagando sempre
Sorte nossa os tempos terem mudado,
Fosse antigamente,
eu viveria sobre um mar de farelos de borracha
Apagando pensamentos,
E sentimentos
Reescrevendo sempre, até que a folha furasse
Ou que o coração se cansasse
Para então recomeçar.

sábado, março 17, 2007


EU: SENHORA DA NÃO INSPIRAÇÃO...

Créditos a Géssica Hellmann
Obra de dezoito anos de freqüentes visitas ao espelho, descobri que tenho um grande queixo e uma grande testa. Descobri que meu rosto é habitação digna para muitas espinhas, descobri uma volta nunca antes desbravada na orelha. Reparei no não se definir da cor dos meus olhos e na covinha de um lado só da minha bochecha. A covinha singular sempre me faz lembrar daquela frase do Mário Quintana: “Símbolo da mais completa solidão”. Descobri que meu cabelo tem sido o mesmo, desde que saiu quando eu ainda era um bebê. Percebi um pescoço ossudo em um corpo rechonchudo. Descobri uma cara meio que de batata que sempre utilizo para tirar fotos, uma sobrancelha anarquista e um nariz que se posiciona, vejam só, no meio da cara.
Obra de dezoito anos de muita identificação com essa imagem diariamente refletida no espelho, gosto de cada uma destas coisas. E pronto.

sábado, março 10, 2007

A Porta


"Eu sou feita de madeira
Madeira, matéria morta
Mas não há coisa no mundo
Mais viva do que uma porta.
Eu abro devagarinho
Pra passar o menininho
Eu abro bem com cuidado
Pra passar o namorado
Eu abro bem prazenteira
Pra passar a cozinheira
Eu abro de supetão
Pra passar o capitão.
Só não abro pra essa gente
Que diz (a mim bem me importa...)
Que se uma pessoa é burra
É burra como uma porta.
Eu sou muito inteligente!
Eu fecho a frente da casa
Fecho a frente do quartel
Fecho tudo nesse mundo
Só vivo aberta no céu!"
(Vinícius de Moraes)

sexta-feira, março 09, 2007


"Pela janela vejo fumaça, vejo pessoas
Na rua os carros, no céu o sol e a chuva
O telefone tocou
na mente fantasia
Você me ligou naquela tarde vazia
E me valeu o dia"
(Ira!)

quinta-feira, março 08, 2007

Passos

O ritmo da vida de alguém pode ser medido a partir do ritmo de suas passadas. Algumas pessoas andam muito rápido, estas chegarão aos sessenta anos com a sensação de terem vivido apenas trinta, e, quando seus joelhos já cansados as impedirem de continuar a correr, olhar-se-ão no espelho e perguntarão em qual das estradas pelas quais passaram despercebidas deixaram a outra metade da vida. Mas há também os sujeitos humanos que se recusam a firmar diariamente compromisso sério com o tempo, estes chegarão aos sessenta com uma experiência digna dos que chegam aos cento e vinte, e, em um de seus passeios agradáveis, um dia aconselharão uma jovem estudante de jornalismo a não correr... Nunca.



Passo, pensamentos, passo, que vão e vem, passo, com o embalar dos calcanhares, passo, será a morte da cabrita, passo, será o amor impossível, passo, será o possível amor, passo, será a dificuldade de uma amiga, passo, semana estranha, passo, semana incompleta, passo, muito trabalho, passo, feriado conveniente, passo, quatro conversas sérias, passo, coração mais aliviado, passo, odeio muito, passo, magoar as pessoas, passo, poucas pessoas me ouvem, passo, lembro de uma noite engraçada, passo, uma pessoa querida, passo, meditação sobre conversa com amigo, passo, muito sono, passo, não consigo, passo, me sentir tranqüila, passo, enquanto ainda tenho alguma coisa pra falar, passo, que dia entrego o livro, passo, tenho vergonha da demora, passo, emagreci um pouco, passo, esqueço de comer, passo, como manter este corpinho, passo, quero ver acordar, passo, amanhã, passo, quero um assunto, passo, para um pequeno texto, passo, bom assunto, passo, passadas.

terça-feira, março 06, 2007

Eu nunca me mudo, e existem coisas em mim que nunca mudam:

Arrepender-me após uma grande loucura
Não encontrar nunca as palavras apropriadas nos momentos apropriados
Perdoar demais pessoas que não merecem
Esconder-me quando ouço berros
Confundir sentimentos
Ignorá-los por vezes
Fazer maus e precipitados julgamentos
Distrair-me com livros para acalmar o coração
Ouvir músicas de que gosto até não gostar mais
Escrever quando estou triste
Escrever coisas ruins, e tristes, quando estou triste
Não dormir o suficiente
Não ler os livros que desgosto até o final
Não cultivar amores, nem amizades
Desistir fácil
Deixar-me influenciar
Insistir até que o fim do texto fique aceitável...

domingo, março 04, 2007

Existem muitas pessoas no mundo por quem eu daria a minha vida, mas por eles eu daria a minha vida duas vezes...


Metade

"Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
pois metade de mim é o que eu grito
mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimento
porque metade de mim é o que ouço
mas a outra metade é o que calo
Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço
que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
e a outra metade um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fui
e a outra metade não sei
Que não seja preciso mais que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o teu silêncio me fale cada vez mais
porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço
Que a arte nos aponte uma resposta
mesmo que ela não saiba
e que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
porque metade de mim é platéia
e a outra metade é a canção
E que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também."

(Oswaldo Montenegro)

Vocês lembram do S. Genésio, o marido da D. Maria?
Ontem ele morreu.

quinta-feira, março 01, 2007

Suor escorrendo por rostos e corpos, molhando roupas, penetrando almas. Caras cansadas, mãos trêmulas, olhares perdidos... Porque parecem tão tristes estas pessoas? O ponto está cheio, a chuva ameaça, mas fica apenas na promessa, o ônibus demora. Eu estou com elas, em meio a elas, e desconfio me parecer com elas. Muitas pessoas, dezenas delas, chega o ônibus muito cheio, é hora de pico, a situação não deveria ser aceitável, mas tantas pessoas, nem uma delas reclama, nem eu... A vida destas pessoas, um eterno acostumar-se, conformar-se, é apenas mais uma etapa ruim, de um dia ruim, de toda uma vida ruim. O ônibus chega, está realmente muito cheio, há uma grávida de pé, sufocando de calor, há velhas se acotovelando, um bêbado, um crente e dezenas de figurantes reais, entre eles eu... Ninguém fala nada, nem eu. A indignação me sobe a garganta, engasgo, tusso, apenas mais uma tosse em um mar de bactérias. Bactérias tristes, cansadas, sofridas. O pneu estoura por excesso de peso, quem diria? Acostuma-se aos absurdos do mundo, ninguém percebeu a gravidade. Apenas a grávida, ela percebeu, empalideceu, imaginei-a parindo ali. As portas abrem, só agora é possível ver a quantidade de bichos humanos que se espremiam dentro da lata amarela com quatro rodas, agora três. Em menos de dois minutos a próxima condução lota e já não é mais possível distinguir os pertencentes ao grupo que vinha com o segundo ônibus dos que o invadiram, subitamente, pelas portas traseiras. As pessoas iam chegando e contando umas as outras o acontecido, alguns balançavam a cabeça em sinal de reprovação, outras comentavam coisa qualquer, algumas sorriam. Um homem grita “Este fim de semana o padre vai sentir falta da gente na confissão, PORQUE JÁ PAGAMOS TODOS OS NOSSOS PECADOS!”, uma mulher comentou que ia perder a novela das oito. O próximo ponto era o meu, fico por aqui, meio que rindo meio que chorando, me sentindo impotente, me sentindo muito parte integrante da cena.
Dobrando a esquina lembro-me da câmera fotográfica dentro da bolsa, que oportunidade perdida. Ainda não me acostumei com o meu papel social.

“...queimar os barcos, cortar as pontes, cortar pelo são, cortar a direito, cortar as voltas, cortar o mal pela raiz, perdido por dez perdido por cem, homem perdido não quer conselhos, desistir a vista da meta, estão verdes não prestam, melhor um pássaro na mão que dois a voar, estas e muitas mais, e todas afinal para dizer uma só coisa, O que não quero é o que não posso, o que não posso é o que não quero.”

(José Saramago)

domingo, fevereiro 25, 2007

Eu prefiro ouvir uma música a assistir televisão
Ou então eu prefiro ler alguma coisa
E eu faço isto porque prefiro realmente
Eu fico triste por muito pouco
Mas sei ser feliz com pequenas coisas
Eu prefiro o café bem forte
De preferência instantâneo
E com o leite frio
Eu nunca sei se estou realmente amando
E isto atrapalha muito meus relacionamentos
Eu odeio disciplinas exatas
Acho os princípios da física quântica interessantes
Adoro divagar sobre assuntos realmente profundos e improváveis
Só pelo prazer da divagação
Tenho amigos que compartilham do gosto
Outras pessoas bastante próximas não entendem a metade do que eu falo
Algumas vezes me sinto muito burra
Outras, me sinto a mais inteligente dos mortais
Eu não consigo seguir meus próprios conselhos
E magôo muito as pessoas
Ou então exagero no amor
Eu finjo ser uma pessoa que não sou nove horas por dia
Talvez eu faça isso por mais horas durante o dia
Talvez eu faça isso o dia inteiro
E eu já estou desconfiando que não seja fingimento
Talvez esta seja eu
E eu fico mesmo chateada com isso
A vida não é fácil
Mas poderia ser pior
E este é um pensamento comodista
Quando estou triste gosto de contar pra alguém em quem eu confie
Depois gosto de ir dormir
Tudo o que faço quando estou triste sai mal feito
Até dormir
Eu gosto mais do inverno
Eu nunca canso de olhar pela minha janela
E nos últimos tempos
Nos últimos dezoito anos
Tenho sentido falta de uma pessoa
Que por culpa dela própria
Nunca saberá o quanto a amo
Acho que não estar legal
É um direito adquirido

"Juntaríamos-nos todos em uma sala
Afrouxaríamos nossos cintos
Conversaríamos
Todos relaxariam
Descansaríamos sem culpa
Não mentir sem medo
Discordar sem julgamento

Nós ficaríamos
E responderíamos
E expandiríamos
E incluiríamos
E permitiríamos
E perdoaríamos
E aproveitaríamos
E envolveríamos
E discerniríamos
E inquiriríamos
E aceitaríamos
E admitiríamos
E divulgaríamos
E abriríamos
E alcançaríamos
E falaríamos

Essa é Utopia, essa é minha Utopia.
Esse é meu ideal meu “in sight” final.
Utopia, essa é minha Utopia.
Esse é meu nirvana.

Meu ultimato.
Abriríamos nossos braços
Nós todos pularíamos, nos deixaríamos cair
Nas redes de segurança
Nós dividiríamos
E ouviríamos
E apoiaríamos
E acolheríamos

Seriamos arrastados pela paixão
Não investiríamos em resultados
Nós respiraríamos
E seriamos encantadores

E apreciaríamos a diferença
Seriamos gentis
E aceitaríamos todas as emoções.
Nós providenciaríamos discussões
Todos falaríamos
E todos seriamos ouvidos
E nos sentiríamos notados.

Nós levantaríamos após os obstáculos mais definidos mais gratos
Nós nos curaríamos
Seriamos humildes
E nada poderia nos parar
Seguraríamos forte
E deixaríamos ir
E saberíamos quando fazer o que

Nós libertaríamos
E desarmaríamos
E suportaríamos
E sentiríamos seguros"

(Utopia ~ Alanis Morissette)

Para a Liberdade e Luta

"Me enterrem com os trotskistas
na cova comum dos idealistas
onde jazem aqueles que o poder não corrompeu
Me enterrem com meu coração
na beira do rio onde o joelho ferido
tocou a pedra da paixão."

(Paulo Leminski)

O Analfabeto Político

"O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não
ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos
políticos. Ele não sabe o custo de vida, o preço do
feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e
do remédio dependem das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e
estufa o peito dizendo que odeia a política.
Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política,
nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos
os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto
e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.
Participar é preciso."

(Bertolt Brecht)

sábado, fevereiro 24, 2007


"Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho."

(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Há de se saber

Há de se conformar que a vida é cheia de contradições, que as pessoas morrem, que os amores vão e vem, que nem sempre a pessoa que mais amamos é a que nos acompanha por toda a vida, e que nem sempre a pessoa que nos acompanha por toda a vida é a que mais amamos.
Há de se entender que nem sempre o universo conspira a nosso favor, que as pessoas às vezes irritam, que por mais que se estude por vezes não se aprende, que o trânsito engarrafa, que sempre existirá a direita e a esquerda, o bem e o mal, o realismo e o surrealismo, e que tudo são lados de uma mesma moeda. Há de se entender que é uma questão de equilíbrio, e de sensibilidade.

Há de se conformar que o amor pode vir apenas depois do fim, que o fim pode vir mesmo havendo amor, ou que por mais que se queira o amor nunca venha. Há de se saber que a vida é capaz de reservar momentos muito tristes, que é bem possível que chova no natal, no reveillon e no feriado de carnaval, que um dia alguém em quem você confie a vida te decepcione, que o dinheiro nunca seja o suficiente, que a faculdade não seja o que você esperou, que você odeie seu emprego, que você nunca conheça seus verdadeiros pais.
Há de se aceitar que os vizinhos possam não ir com a sua cara, que roubem seu carro, ou sua bicicleta e que o seguro não cubra, que a luz acabe no meio de um banho quente, que a vontade acabe no clímax do momento, que um livro bom tenha um final ruim, que um rato um dia faça um ninho em cima do seu armário.
Há de se entender que a vida nem sempre sai como se deseja, que a infelicidade existe sim.
Mas acima de tudo, há de se saber que é tudo uma questão de escolhas e que é sempre possível ser feliz.

O Grande Gol

Ontem uma amiga perguntou quais os meus planos para o futuro, perguntou se eu tinha algum grande “gol” a perseguir. E novamente eu senti aquela sensação estranha, quais são os meus sonhos, foi o que eu me perguntei, não tenho sonhos, esta é a resposta. Não é a primeira vez, tenho um outro amigo que sempre me pergunta e eu nunca sei bem o que responder. Passam sim vários desejos de realizações futuras pela minha cabeça, afinal não há quem não pense sobre ele, o futuro. Mas nenhum plano é suficientemente grande para poder ser chamado Sonho.
E respondi, não sei, acho que quero ser feliz, ela riu e respondeu, claro, eu ainda não sabia disso.
Então tentei pensar no assunto e o fiz em voz alta, devaneando com ela, altas horas da noite, eu no beliche de cima, ela no de baixo, acerca do que eu imaginava como projeto de felicidade plena. Falei que eu quero estudar, estudar muito mais do que já estudei, quero fazer um mestrado, um doutorado talvez, quero trabalhar e ter certa estabilidade para poder viver tranquilamente. Falei que não quero ter filhos, talvez me case, mas filhos por hora me parecem improváveis, talvez adotasse uma criança, tenho um senso de responsabilidade demasiado grande com relação ao assunto “fazer seres humanos”, até que a maturidade venha me mudar a idéia. Eu disse para ela, e foi isto que não consegui explicar direito, que o conhecimento do mundo e do ser humano, pode nos trazer felicidade. Ela discordou, disse que quanto mais alguém possui conhecimento, mais decepcionado com o mundo fica. Não consegui rebater a questão, prometi pensar no assunto, eu tinha tão claro isto na mente, mas não sabia como explicar a ela coisa que nunca antes havia sido verbalizada. Na minha cabeça esta idéia existe há muito tempo, mas apenas na linguagem dos pensamentos, e agora eu já não sabia traduzi-la.
Depois ela disse boa noite e eu fiquei mais uns minutos pensando sobre o assunto, até que adormeci. Agora voltei a pensar, vejo que eu não consegui explicar a ela o caminho que planejei para chegar à felicidade porque havia errado já no primeiro conceito. A plenitude da minha felicidade não reside hoje, e nem residirá no futuro sobre o qual falávamos, no conhecimento adquirido nas academias da minha vida.
Minha felicidade será plena na proporção em que pleno for o meu conhecimento não só da mente, mas também do coração humano, na proporção em que eu possa retribuir com sinceridade um desejo de bom dia, na proporção em que eu realmente me sinta bem em ajudar alguém, na proporção em que eu aprenda a amar, na proporção em que dos livros eu tire não apenas todo o conhecimento objetivo que me dará inteligência, mas todo o ensinamento de vida empregado pelos autores naquelas páginas, na proporção em que eu saiba renunciar inclusive a minha felicidade em troca da felicidade daqueles a quem amar, na proporção em que aprenda a não deixar que futilidades cotidianas abalem minha paz, na proporção em que eu ensine aos demais como serem felizes, na proporção da minha capacidade de mostrar-lhes que a felicidade não é utópica, é real e por vezes palpável.
Então repensando tudo isto, acho que posso sim afirmar que o único grande “gol” que eu desejo perseguir é a felicidade, e que isso não é assim nem tão comum, nem tão estranho.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007


Rimas de um dia estranho

Feia e descabelada
Por sorte não acorda novamente atrasada

Sono atordoante
Manhã entediante
Coração palpitante
palpitante
palpitante

Comida fraca
Leitura rápida

Impossível trabalhar
Não pode se concentrar
Amar, amar, amar

De hoje não pode se estender
Ela vai ter de dizer

Sai sem se alimentar
Não consegue nem pensar
Hoje ela vai falar

Conversa
Desconversa
Depressa
A oportunidade vai passar

Ele fala
Ela cala
O que ela quer não existe
Nem resiste
Ela desiste

Que bom
Que acompanhe a ambos
A felicidade
De verdade...



"ameio em cheio
meio amei-o
meio não amei-o"

(leminsk)

domingo, fevereiro 11, 2007


A lua no cinema

"A lua foi no cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.

Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!

Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava para ela,
e tada a luz que ela tinha
cabia numa janela.

A lua ficou tão triste
com aquela história de amor,
que até hoje a lua insiste:
- Amanheça, por favor!"

(Paulo Leminski)

Velhos heróis

Todos nós, quando crianças, possuímos heróis. Eu não fui uma criança de muitos desenhos em quadrinhos, de personagens midiáticos. O meu grande herói foi e até hoje tenta persistir em ser, um homem. Este homem me ensinou valores, me ensinou a desconstruir tabus, me mostrou o que é a felicidade da simplicidade, me mostrou o valor da humildade, me ensinou a ser gente.
Depois, não sei se fui eu ou se foi ele, alguma coisa mudou. Ele já não tinha mais todas as respostas, já não estava mais tão presente, já não me convencia de tudo. Durante um bom tempo continuei vendo-o como o melhor homem do mundo, mesmo enxergando seus defeitos, porque afinal, a vida, o mundo, nos obrigam a ter defeitos.
Mesmo quando os erros ultrapassaram a linha do aceitável, eu o defendí, eu ainda punha a culpa no mundo, no destino e na falta de sorte.
Eu bem que tentei, talvez a errada seja eu, mas hoje eu já não consigo e isto me faz sentir muito sozinha, já não há mais em quem confiar...
Alguma coisa dentro de mim me pede insistentemente para continuar perdoando e entendendo as coisas que passam na cabeça deste antigo herói. Mas o que esta coisa não sabe, é que eu já o enterrei e que talvez não haja mais volta. O que esta coisa não sabe é que eu prefiro a solidão a mais uma decepção. E que entre nós, daqui para frente, sempre haverá seqüelas de uma antiga desilusão.

sábado, fevereiro 10, 2007


Hoje

Acordei atrasada. Ao meu lado dormia o meu celular que, de certo havia despertado e sido enfiado por alguém em baixo das cobertas, não sei quem. Café da manhã só na metade dela, a manhã, na hora do cafezinho no trabalho. Almoço-corrido, trajeto de ir e voltar, preparar minha própria comida, tomar um banho, separar farinha para o trote de logo mais a noite, dar uma espiadinha na internet. Atrasada novamente após o almoço. Tarde tranqüila, trabalho tranqüilo. Final da tarde toca o celular, o que me dizem me abala, acabo de enterrar o ultimo dos meus heróis, acho que desta vez não tem volta. Encaminho-me para a faculdade, na biblioteca uma boa conversa com uma boa pessoa, falamos de poesia, do universo acadêmico, filosofamos sobre a vida. Agora já não estou mais tão triste. Na saída derrubo farinha na biblioteca, os ovos não quebram. Vou para a confeitaria ver se encontro alguns amigos. Encontro-os, tomo um café expresso, sorrio mais um pouco, alguém me diz que eu sou tão adorada quanto a Coca-Cola, fico feliz. Minutos depois, primeira aula de antropologia cultural, a matéria me parece interessante, ser humano, cultura, parece que vou gostar. Chega a hora do trote, buscar os calouros na sala, muitos berros, muita algazarra, muita sujeira, muitas gargalhadas, um ovo no braço. Tiro muitas fotos, gravo alguns vídeos, penso em editá-los este fim de semana. Voltamos à faculdade, sento na quadra, mais um tempo de conversa jogada fora, alguém me propõe algo “indecente”, participar do MPL, nego. Louca, ainda não tanto. Final da noite, a idéia de um cachorro-quente, barraquinha fechada, nos encaminhamos ao bar. Duas cervejas e um enrolado de salsichão com três amigos e o autor da proposta indecente, também muito amigo. Discussões sobre a política local. Vamos embora, já está próximo da hora do último ônibus deles. Tchau, tchau! Beijo, beijo. Até amanhã, me liga.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

"... Comparando com a velocidade instantânea do pensamento, que segue em linha reta até quando parece ter perdido o norte, cremo-lo porque não percebemos que ele, ao correr numa direção, está a avançar em todas as direções, comparando, dizíamos, a pobre da palavra está sempre a precisar de pedir licença a um pé para fazer andar o outro, e mesmo assim tropeça constantemente, duvida, entretém-se a dar voltas a um adjetivo, a um tempo verbal que surgiu sem se fazer anunciar pelo sujeito..."

(José Saramago - A Caverna)

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Dos bolos de pêssego

Os últimos dias foram de pouca inspiração para escrever. Diariamente eu sentava em frente ao computador e pensava em algum bom tema a cerca do qual divagar em muitas ou poucas linhas, mas nenhum assunto me parecia suficientemente adequado. Esta súbita fuga de ideias deu-se na noite do último sábado, quando, voltando de um passeio agradável no shopping com a minha mãe, chamei-lhe a atenção para a beleza da lua. Eu tenho esta, não sei se a palavra seria “mania”, acredito que mais um “gosto especial”, por observar a beleza de velhos clichês da natureza, como um belo luar, um bonito nascer do sol ou uma borboleta colorida. Mas a minha adorável mãe não se mostrou tão impressionada com o visual daquele céu noturno. Agora, recordando a cena, ocorre-me que ela possivelmente já observou o dobro de luares que eu durante a vida e, talvez, já esteja entediada. O fato é que ela me respondeu: “Não dá para olhar o céu e andar ao mesmo tempo, daqui a pouco eu bato num poste e não sei por que”. Na hora o comentário me fez rir muito, já que estávamos em uma rua larga, sem movimento algum, quase no portão do condomínio e não havia postes numa distancia de uns dez metros. Mas quando cheguei em casa e sentei na minha cadeirinha em frente ao computador, abri o editor de texto e aquela barrinha ficou piscando, piscando, como uma dedicada funcionária esperando que lhe dêem serviço ou como uma dedicada agulha esperando que lhe dêem o fio e a conduzam na construção de um belo trabalho. Por fim a barrinha deve ter ficado decepcionada, porque eu fechei o editor e fui dormir.
Nos dias seguintes reli todos os meus antigos textos e aproveitei o tempo ocioso, já que eu não o utilizava para escrever, lendo textos publicados nos blogs de alguns amigos. Reparei que eu não sou a única que tomo sempre a natureza e suas belezas como tema para as dissertações. Relembrei também o quanto eu sempre odiei bolo de pêssego e quadros de frutas e de paisagens amadoramente produzidos com tinta de pintar tecido. Não me perguntem que relação o bolo de pêssego tem com as paisagens em quadros amadores, porque não saberei responder de forma racional. Só o que sei é que, por algum destes motivos de ordem inconsciente, estes dois elementos estão diretamente interligados na minha mente e me passam a sensação de coisas mal feitas tentando imitar coisas inimitáveis.
Mas voltando ao assunto do qual eu já devo ter feito o leitor se perder, percebi então que os meus textos se parecem muito com as paisagens amadoras e com os bolos de pêssego e que, sinceramente, se eu no futuro me encontrasse com algum deles e não lembrasse da autoria, os acharia pouco atraentes para não dizer (dizendo) "chatos".
Não sei se esta percepção pode ser encarada como um contrato onde firmo o compromisso de não oferecer mais aos meus tão raros e caros leitores, bolos de pêssego. Talvez eu continue a fazê-lo porque, sim, confesso que isto às vezes me dá certo prazer, afinal é o que de melhor faço. Não, não se confunda amigo, meus dotes culinários são horríveis, o que acredito saber fazer, na verdade, é observar a beleza de pequenas coisas, que para mim são grandes, e codifica-las em palavras, de forma tão ou mais amadora que os quadros. É importante que tanto eu quanto vocês, consigamos nos dar conta de que há muito mais além do que vemos, que é possível que por trás do gosto estranho do bolo ou do contorno malfeito no quadro, haja algo para alguém que é realmente grande e especial. E isto é só o que importa.


Ou talvez eu só esteja tentando justificar alguns escritos ruins...

sexta-feira, fevereiro 02, 2007


“Vez em quando bate um vento por aqui
Abro as minhas asas pra tentar subir
Mas com tanto tempo preso a essas
Grades, me esqueci
E agora tenho medo de cair

Tiê
Venha das alturas me salvar (...)

Vai sem medo, vai
Vai ganhar o céu
Quem provou da liberdade
Não terminará
Preso às próprias grades
Um dia eu vou voar
Eu já vivi no ar
Vem me ver voar...”

Jorge Vercilo

"É incrível
Nada desvia o destino
Hoje tudo faz sentido
E ainda há tanto a aprender"

"E fui andando sem pensar em mudar
E sem ligar pro que me aconteceu
Um belo dia vou lhe telefonar
Pra lhe dizer que aquele sonho cresceu
No ar que eu respiro
Eu sinto prazer
De ser quem eu sou
De estar onde estou"

Maria Rita

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Hei D. Maria!

Eu gritava batendo palmas no portão. Logo vinham os dois cachorros amarelos latindo insistentemente até que vinda lá de cima, descendo a rampa que levava a porta lateral da casa, vinha me atender aquela senhora idosa de aparência cansada.
- Hei Dona Maria! Olhe eu aqui incomodando de novo.
- Não, não. Você nunca incomoda querida. Como está a mana? E o pai? E a Mãe? Ela está bem de saúde? Ainda morando em Mafra?
- Ta sim D. Maria, ta bem, ta em Mafra sim. O Pai e a Zete também, tão na loja agora.
-Ah, que bom! Que bom que tem trabalho, né? Deus é muito bom. Ontem levei o Tonho ao Santuário. Você já viu o coração?
- Coração D. Maria, que coração?
- O coração de Jesus que tem no santuário. Nunca vi coisa mais linda na minha vida, é muito lindo, muito lindo.
- Que legal D. Maria!
- Quer entrar minha linda? Como você está bonita.
- Não, não D. Maria, na verdade eu vim pedir uma xicrinha de trigo emprestada. A Zete vai no mercado hoje e disse que amanhã a gente devolve.
- Não, não precisa.
D. Maria sai, volta três minutos depois com a xicrinha de trigo, um pratinho com um pedaço de bolo recém tirado do forno e um cacho de bananas.
- Não precisa tudo isso D. Maria.
- Leva, leva. E não quero o trigo de volta. Leva o bolo pras crianças, mais tarde o Genésio leva umas balinhas pra elas. Dá um beijo na Zete e na mãe também. Deus vai ajudar a mãe, ela vai ficar boa minha filha.
- Obrigada D. Maria, não precisava de tudo isso mesmo, amanhã devolvemos sim, peço às crianças pra trazerem. Obrigada D. Maria!
- Vai minha filha. Vai com Deus! Eu tenho uma casa toda pra limpar hoje ainda.
- Não devia D. Maria, devia descansar que a senhora não anda bem. O médico não mandou descansar?
- Mandou sim, mas não tem ninguém pra fazer o serviço por mim, e alguém tem que olhar o Tonho e fazer o almoço pro Genésio.
- Vê lá D. Maria, vê se se cuida. Tchau!
- Tchau, minha filha. Vai com Deus!

Esta cena se repetiu, sem significativas mudanças no cenário e no diálogo, muitas vezes. Tenho-a bem gravada na memória.
A senhora de nome Maria era tão simples quanto o seu nome. Vivi na casa que fazia vizinhança à frente da sua, no bairro Floresta, por cinco anos. Durante o tempo em que morei lá pude saber de poucas coisas da vida desta mulher, mas o que eu soube e o que eu vi sobre quem ela era para mim bastam.
D. Maria se casou cedo, se amava seu marido isto é coisa que não sei, mas que era dedicada, isto era. Há alguns anos, creio eu que muitos anos, perdeu dois filhos jovens afogados numa praia, tinha um filho doente mental, que costumava varrer a rampa na frente da casa e botar o lixo para fora. Ele ficava sentado por horas no jardim e me dava “tchau” quando eu saía e quando eu voltava. D. Maria tinha outro filho que vivia com ela, eu tinha uns treze anos e achava que se existia uma cara que era “mau”, este cara era ele. Ele a maltratava, sabem? Ele a maltratava mesmo...
O S. Genésio, seu marido, era um velho bêbado. Sempre bêbado, sempre tremendo, sempre caindo no terreno baldio ao lado da minha casa, sempre gritando com ela. Ás vezes voltava do bar e levava umas balas para os meus irmãos, estas coisas que os bêbados fazem, outras vezes ele brigava com ela, não sei se batia, mas devia bater, porque o Tonho avançava nele, o Tonho tinha idade mental de quatro anos acho, talvez três, talvez seis, um dia alguém me disse, mas eu não me lembro ao certo. O Tonho era o filho da D. Maria que teve meningite, o Tonho tinha trinta e três anos.
A D. Maria era uma pessoa muito, muito, muito amável. Todos nós a amávamos, pena que todos nós tivéssemos sempre tantos problemas. Podíamos ter feito muito mais por aquela alma cansada. Podíamos ter feito mais por aquela senhora encantadora que da última vez que vi estava doente, com um tipo de paralisia facial psicológica. Isto foi há dois anos, foi quando arrumei minhas coisas e saí daquela casa, saí sem dor na consciência, fugi dos meus problemas (que eram tão pequenos perante os dela), e o que mais me dói é que nem senti a sensação de estar esquecendo algo, eu nem me despedi da D. Maria.
Ontem descobri que a D. Maria está morta há duas semanas, ninguém se deu ao luxo de me avisar, ninguém pensou que eu me lembrasse dela.
Eu não acredito muito em céu, não anseio o céu para mim, mas ela o ansiava, era o seu único conforto. E neste momento eu queria muito mesmo que o céu existisse, só para a D. Maria, só para que uma vez na vida ela fosse recompensada. Eu queria que de alguma forma ela pudesse saber o que eu penso, para que ao menos uma vez ouvisse da boca de alguém o quanto era especial. D. Maria.