quarta-feira, dezembro 23, 2009

Fabricada ocupada Flaskô

Estes dois vídeos fazem parte do documentário exibido no Multishow sobre a luta diária dos trabalhadores da única fábrica ocupada do Brasil, a Flaskô, em Sumaré, São Paulo.

A fábrica foi tomada pelos trabalhadores em 2003, após ter sua falência decretada. Desde então os trabalhadores lutam pela manutenção de seus empregos e pela estatização da fábrica.




segunda-feira, dezembro 21, 2009

Direito ao delírio

"Já está nascendo o novo milênio. Não dá para levar muito a sério o assunto: afinal, o ano 2001 dos cristãos é o ano 1379 dos muçulmanos, o 5114 dos maias e o 5762 dos judeus. O novo milênio nasce num 1º de janeiro por obra e graça de um capricho dos senadores do Império Romano, que um bom dia decidiram quebrar a tradição que mandava celebrar o ano-novo no começo da primavera. E a conta dos anos da era cristã deriva de outro capricho: um bom dia, o papa de Roma decidiu datar o nascimento de Jesus, embora ninguém saiba quando nasceu.

O tempo zomba dos limites que lhe atribuímos para crer na fantasia de que nos obedece; mas o mundo inteiro celebra e teme essa fronteira.

Um convite ao vôo

Milênio vai, milênio vem, a ocasião é propícia para que os oradores de inflamado verbo discursem sobre os destinos da humanidade e para que os porta-vozes da ira de Deus anunciem o fim do mundo e o aniquilamento geral, enquanto o tempo, de boca fechada, continua sua caminhada ao longo da eternidade e do mistério.

Verdade seja dita, não há quem resista; numa data assim, por arbitrária que seja , qualquer um sente a tentação de perguntar-se como será o tempo que será. E vá-se lá o tempo que será. Temos uma única certeza: no século 21, se ainda estivermos aqui, todos nós seremos gente do século passado e, pior ainda, do milênio passado.

Embora não possamos adivinhar o tempo que será temos, sim, o direito de imaginar o que queremos que seja. Em 1948 e em 1976, as Nações Unidas proclamaram extensas listas de Direitos Humanos, mas a imensa maioria da humanidade só tem o direito de ver, ouvir e calar. Que tal começarmos a exercer o jamais direito de sonhar? Que tal delirarmos um pouquinho? Vamos fixar o olhar num ponto além da infâmia para adivinhar outro mundo possível: o ar estará livre de todo o veneno que não vier dos medos humanos e das paixões humanas; nas ruas, os automóveis serão esmagados pelos cães; as pessoas não serão dirigidas pelos automóveis, nem programadas pelo computador, nem compradas pelo supermercado e nem olhadas pelo televisor; o televisor deixará de ser o membro mais importante da família e será tratado como o ferro de passar e a máquina de lavar roupas; as pessoas trabalharão para viver, em vez de viver para trabalhar; será incorporado aos códigos penais o delito da estupidez, cometido por aqueles que vivem para ter e para ganhar, em vez de viver apenas por viver, como canta o pássaro sem saber que canta e como brinca a criança sem saber que brinca; em nenhum país serão presos os jovens que se negarem a prestar o serviço militar, mas irão para a cadeia os que desejarem prestá-lo; os economistas não chamarão nível de vida o nível de consumo, nem chamarão qualidade de vida a quantidade de coisas; os cozinheiros não acreditarão que as lagostas gostem de ser fervidas vivas; os historiadores não acreditarão que os países gostem de ser invadidos; os políticos não acreditarão que os pobres gostem de comer promessas; a solenidade deixará de ser uma virtude; a morte e o dinheiro perderão seus mágicos poderes, e nem por falecimento ou fortuna o canalha será transformado em virtuoso cavalheiro; ninguém será considerado herói nem idiota por fazer o que crê seja justo, em lugar de fazer o quem mais lhe convém.

O mundo já não se encontrará em guerra contra os pobres, mas sim contra a pobreza, e a indústria militar não terá outro caminho senão declarar a falência. A comida não será uma mercadoria, nem a comunicação um negócio, porque a comida e a comunicação são direitos humanos. Ninguém morrerá de fome porque ninguém morrerá de indigestão. As crianças de rua não serão tratadas como se fossem lixo, porque não haverá crianças de rua. Os meninos ricos não serão tratadas como se fossem dinheiro porque não existirão meninos ricos; a educação não será um privilégio de quem possa pagá-la; a polícia não será a maldição de quem não possa comprá-la; a justiça e a liberdade, irmãs siamesas, condenadas a viver separadas, tornarão a unir-se, bem juntinhas, ombro-a-ombro; uma mulher, negra, será presidenta do Brasil e outra mulher, negra, será presidenta dos Estados Unidos da América; uma mulher indígena governará a Guatemala e outra o Perú; na Argentina, as loucas da Praça de Mayo serão o exemplo de saúde mental porque se negaram a esquecer dos tempos da amnésia obrigatória; a Santa Madre Igreja corrigirá os erros das tábuas de Moisés, e o sexto mandamento ordenará que se festeje o corpo; a Igreja também ditará outro mandamento, do qual Deus se esqueceu: “amarás a natureza da qual fazes parte”; serão reflorestados os desertos do mundo e os desertos da alma; os desesperados serão esperados e os perdidos serão encontrados, porque eles são os que se desesperaram de tanto esperar e os que se perderam de tanto procurar; seremos compatriotas de todos os que tenham vontade de justiça e vontade de beleza, tenham nascido onde tenham nascido e tenham vivido onde tenham vivido, sem que importe nem um pouco as fronteiras do mapa ou do tempo; a perfeição continuará sendo um aborrecido privilégio dos deuses; mas, neste mundo confuso e fastidioso, cada noite será vivida como se fosse a última e cada dia como se fosse o primeiro.”

Eduardo galeano ~ Patas arriba La escuela del mundo al revés.
Livre traduação de Sérgio Homrich e do companheiro do PT e da Esquerda Marxista Airton Sudbrack

sábado, dezembro 19, 2009

Presente de um poeta

Hoje ganhei do meu camarada Juan Diego o livro Presente de um Poeta, de Pablo Neruda. Sem dúvida foi literalmente um dos presentes mais lindos que já ganhei.

Neruda era marxista. Para entender o que há por trás de seus poemas, é preciso compreender que a poesia é a materialização dos sentimentos e que não há nada mais comunista que o amor.

Segue um trecho do Discurso Del Prêmio Nobel, presente no livro:

“Um pobre e esplêndido poeta, o mais atroz dos desesperados, escreveu esta profecia: “Ao amanhecer, armados de uma ardente paciência, entraremos nas esplêndidas cidades”. Eu creio nessa nesta profecia de Rimbaud...
Sempre tive confiança no homem. Jamais perdi a esperança. Por isso talvez tenha chegado até aqui com a minha poesia, e também com a minha bandeira.
Em conclusão, devo dizer aos homens de boa vontade, aos trabalhadores, aos poetas, que todo o futuro foi expresso nessa frase de Rimbaud: só com uma ardente paciência conquistaremos a esplêndida cidade que dará luz, justiça e dignidade a todos os homens.
Assim a poesia não terá cantado em vão.”

quarta-feira, dezembro 16, 2009

PA do Aventureiro


Depois de 12 anos o meu telefone tocou e eu acordei assustada. Droga! Tinha me enganado sobre o horário. Meia hora depois, um pouco descabelada, alisando a saia e abotoando a sandália, eu chegava ao cenário do teatro ridículo. Havia mais políticos do que gente rodeando o lendário Pronto Atendimento Leste de Joinville. Mentira. Tinha bastante gente também. O povo, esse cara tão paciente, que esteve lá tantas vezes antes fazendo manifestações e exigindo a conclusão da obra, parecia muito feliz. Os políticos falavam com o povo com carinho, como padrastos que, depois do enteado crescido, esquecem todas as maldades feitas e alardeiam o quanto foram bondosos com a criança. Após três horas no sol escutando discursos, o povo entrou no PA se acotovelando e ficou muito satisfeito com a bonita pintura das paredes. Depois o povo foi indo para casa. Às 13 horas teria que voltar ali para tratar da insolação que tomara de manhã.

terça-feira, dezembro 15, 2009

O velório e a verdade

Quando sentiu o carro sair do controle Leandro manteve a tranquilidade. Foi muito inesperado, não era assim que as pessoas morriam. Ele tinha imaginado a morte muitas vezes e, por isso, sabia que aquele não era o momento. Apenas tentou manobrar e, mesmo quando a cerca de proteção se rompeu e o carro deslizou morro abaixo, ainda estava calmo.

Era 21 de setembro de 1999, primeiro dia da primavera, e havia um buquê de flores no banco traseiro do carro. Muito se falou sobre essa coincidência depois, mas foi como um retrato bonito que se tira ao acaso.

Às oito e meia o telefone tocou. Serena escutou apreensiva o que lhe falavam do outro lado da linha, depois parou em frente à janela, imersa em pensamentos profundos e, então, resolveu bater no quarto de Alícia.

− Filha.
− Mãe?
− Filha, o Leandro se acidentou.

Alícia ouviu tais palavras dos lábios da mãe sem se desesperar. Ainda estava um pouco sonolenta, e tentava inconscientemente criar uma barreira para rejeitar aquilo que todos mais temem ouvir. Em um relâmpago de pensamento lembrou-se de que dia era, imaginou flores e, sem saber explicar, teve uma certeza desesperada de que era impossível o pior ter acontecido. Talvez por esse motivo, quando Serena contou a ela que o ex-namorado morrera, Alícia teve meio minuto de incompreensão.

Mas não havia como negar. A notícia fora despejada em sua cabeça e de lá não sairia nunca mais. Primeiro um calor insuportável subiu pela garganta e uma lágrima pesada caiu. Depois outra e outra e soluços. Uma hora inteira de soluços. A mãe lhe deu chá e remédios, mas Alícia não dormiu. Estava em estado de choque, deitada com os olhos fechados e completamente acordada.

Há alguns dias a garota decidira pedir para reatarem. Haviam terminado há três meses, mas duas semanas depois voltaram a se encontrar. Agora, Alícia só conseguia pensar que não dera tempo e que tudo poderia ser diferente.

Naquela manhã Leandro voltava de um fim de semana na cidade em que moravam os pais e trazia flores para a avó. Não era justo. Alícia não acreditava em Deus, mas naquele dia ignorou isso só para poder culpar alguém.

Serena pediu que não fosse ao enterro. Não tinha motivo, dizia. Achava que a menina se sentiria muito pior, que a viagem seria dolorosa, que era melhor “lembrar dele vivo”. Mas Alícia nunca foi do tipo que atende a apelos e, mesmo após tantos sedativos, agiu com a conhecida obstinação.

− Eu vou.

E foi. Quando chegou à capela da cidadezinha em que a família de Leandro morava, Alícia não chorava mais. Observou as feições tristes, as lamúrias, os olhares distantes, as flores horrorosas, a falta da mãe que fora hospitalizada. Tudo fazia parte de um cenário clichê. Essa é a foto da morte e nunca ninguém cogitou mudá-la. Alícia tinha o rosto seco, mantinha-se muda e agora entendia a expressão “silêncio mortal”.

Deu um abraço na irmã do falecido e permaneceu ao lado dela, tentando descobrir o que havia de errado por ali. Percorreu com os olhos toda a sala, olhou para o caixão – ainda não chegara perto dele – e descobriu o que estava fora do lugar. Do lado direito do morto, chorando, havia uma moça de cabelos muito negros e olhos castanhos. Uma menina com feições comuns, magra e bonita, que tocava um Leandro desfalecido. Alicia soube que sobrava alguém exatamente ali. Baixou os olhos e teve certeza de quem faltava ao seu lado.

− É a namorada dele, falou a ex-cunhada.

Alícia já havia entendido e, tão rápido quanto tudo naquele dia, decidira calar-se. A menina era muito jovem, pensou. Não pôde evitar um humor proibido quando comparou a situação com as histórias de Nelson Rodrigues. Nem um pensamento egoísta da recente descoberta de que, mesmo vivo, Leandro não voltaria mesmo a ser seu. Naquele dia os dois amores de Leandro enterraram-no, mas Alicia o sepultou mais fundo, dentro de si.

Faz tempo que eu não ponho fotos aqui, mas é por que eu só gosto de colocar as mais especiais. A foto é de João Diego Leite.

Quem vai dizer tchau?

Quando aconteceu? Não sei.
Quando foi que eu deixei de te amar?
Quando a luz do poste não acendeu
Quando a sorte não mais soube ganhar
Não..
Foi ontem que eu disse não..
Mas quem vai dizer tchau?

Onde aconteceu? não sei.
Onde foi que eu deixei de te amar?
Dentro do quarto só estava eu
Dormindo antes de você chegar..
Mas não..
Não foi ontem que eu disse não..
Mais quem vai dizer tchau?

A gente não percebe o amor
Que se perde aos poucos sem virar carinho.
Guardar lá dentro amor não impede,
Que ele empedre mesmo crendo-se infinito.
Tornar o amor real é expulsá-lo de você,
Prá que ele possa ser de alguém!

Somos se pudermos ser ainda
Fomos donos do que hoje não há mais.
Houve o que houve é o que escondem em vão,
Os pensamentos que preferem calar,
Se não, irá nos ferir um não -
Mas quem não quer dizer tchau.

(...)

(Nando Reis)

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Ciências

Os professores de ciências eram todos mentirosos, pensou
Ensinavam que as pessoas nascem, crescem e morrem
Todas nascem e morrem
Mas nem todas crescem

segunda-feira, novembro 30, 2009

O sereno silêncio

Depois de passarmos uma noite ao embalo de um legítimo tango argentino, pegamos a estrada ao som do bom e velho rock and roll. Entre nós imperava um sereno silêncio. Você dirigia em alta velocidade e eu observava as luzes alaranjadas da rodovia. Na cabeça aquele poema do velho Quintana: “Amizade. Quando o silêncio a dois não se torna incômodo”. Outra vez resolvemos não resolver nada. Na manhã seguinte, te vendo dormir, pensei que não havia nenhum outro lugar onde eu gostaria de estar.

"...E eu acho que eu gosto mesmo de você
Bem do jeito que você é...

... Adoro essa sua cara de sono
E o timbre da sua voz
Que fica me dizendo coisas tão malucas...”

quarta-feira, novembro 25, 2009

O prisioneiro

Na metade da tarde há um horário em que quase diariamente vou ao Fórum de Joinville. Eu trabalho ali ao lado e, embora aquela rua seja importante, pois nela ficam os prédios dos três poderes na cidade, não há muito onde comer por lá. Então, como eu ia contando, costumo ir ao Fórum comprar alguma coisa para acabar com aquela dorzinha de cabeça que vai dando da fome.

Na quinta-feira passada eu fui lá fazer exatamente isso. Passei pela porta principal de entrada e fui direto ao caixa eletrônico sacar dinheiro para comer. Ao lado da máquina havia um aglomero de homens fardados, mas eu nem prestei atenção, afinal isso é normal por lá. Foi só por causa da fila do caixa, fixei os olhos naquele amontoado de pessoas sem saber exatamente para o que estava olhando e, de repente, comecei a sintonizar o que acontecia. Circulando um homem tinha uns cinco policiais e a advogada dele. Agarrada com um braço só ao cara no meio da roda tinha uma mulher cuja saia e cabelos compridos denunciavam ser evangélica. No colo dela, uma menininha de uns dois anos de idade que também o tocava.

Não sei há quanto tempo estavam assim. Os policiais pareciam comovidos e ninguém queria o tirar à força daquele emaranhado de braços femininos. Aí um deles terminou de conversar com a advogada e fez um sinal com a cabeça. O prisioneiro, que nem algemado estava, falou à mulher que precisava ir e ensaiou um passo. Ela o segurou pela cintura, ele falou alguma coisa que não pude ouvir, deu um beijo apaixonado em sua boca e um beijo carinhoso na cabeça da garotinha. Depois saiu pela porta com os policiais e a mulher ficou parada, olhando e chorando com a criança no colo. Ela parecia... precisar dele para viver.

Saí do Fórum sem ter feito o que fui lá fazer. Perdi completamente a fome e a vontade de qualquer coisa. Comentei com uma amiga depois, disse a ela que eu não sabia o que ele tinha feito, mas que aquilo me parecia muito injusto. Acho que de todos que eu contei essa história ela foi a que mais entendeu meu sentimento. E me disse assim: a culpa nessa sociedade é sempre uma coisa muito relativa.

sexta-feira, novembro 13, 2009

Caquinhos de cristal

Depois que minha lua voltou a sua órbita, recuperei um sentimento de tranqüilidade. Só que tem sido uma paz estranha, pesada. Há alguma coisa fora de lugar (acho que aqui dentro). Sintonizei novamente aquela freqüência, mas parece que o mundo todo está em descompasso – e até nossa melodia, que era tão bonita, agora parece desafinada. Fecho os olhos e vejo o silêncio materializado. Sinto-me a catar caquinhos de um cristal quebrado (talvez por isso o cansaço). Às vezes ando pelo centro da cidade à noite pensando nessas coisas. Não entendo aonde vão meus passos. Os planos que faço são misteriosos até mesmo para mim.

Meu mundo ficaria completo

Nando Reis

"Não é porque eu sujei a roupa bem agora que eu já estava saindo

Nem mesmo por que eu peguei o maior trânsito e acabei perdendo o cinema
Não é por que não acho o papel onde anotei o telefone que estou precisando
Nem mesmo o dedo que eu cortei abrindo a lata e ainda continua sangrando
Não é por que fui mal na prova de geometria e periga d'eu repetir de ano
Nem mesmo o meu carro que parou de madrugada só por falta de gasolina
Não é por que tá muito frio, não é por que tá muito calor
O problema é que eu te amo
Não tenho dúvidas que com você daria certo
Juntos faríamos tantos planos
Com você o meu mundo ficaria completo
Eu vejo nossos filhos brincando
E depois cresceriam, e nos dariam os netos
A fome que devora alguns milhões de brasileiros
Perto disso já nem tem importância
A morte que nos toma a mãe insubstituível de repente
Dela eu já nem me lembro
A derrota de 50 e a campanha de 70 perdem totalmente o seu sentido,
As datas, fatos e aniversários passam
Sem deixar o menor vestígio
Injúrias e promessas e mentiras e ofensas caem fora
Pelo outro ouvido
Roubaram a carteira com meus documentos
Aborrecimentos que eu já nem ligo
Não é por que eu quis e eu não fiz
Não é por que não fui
E eu não vou
O problema é que eu te amo
Não tenho dúvidas que eu queria estar mais perto
Juntos viveríamos por mil anos
Por que o nosso mundo estaria completo
Eu vejo nossos filhos brincando
Com seus filhos que depois nos trariam bisnetos
Não é por que eu sei que ela não virá que eu não veja a porta já se abrindo
E que eu não queira tê-la, mesmo que não tenha a mínima lógica esse raciocínio
Não é que eu esteja procurando no infinito a sorte
Para andar comigo
Se a fé remove até montanhas, o desejo é o que torna o irreal possível
Não é por isso que eu não possa estar feliz, sorrindo e cantando
Não é por isso que ela não possa estar feliz, sorrindo e cantando
Não vou dizer que eu não ligo, eu digo o que eu sinto e o que eu sou
O problema é que eu te amo
Não tenha dúvidas, pois isso não é mais secreto
Juntos morreríamos, pois nos amamos
E de nós o mundo ficaria deserto
Eu vejo nossos filhos lembrando
Com os seus filhos que já teriam seus netos"


terça-feira, novembro 10, 2009


Naquela manhã acordou muito descansada, sentindo-se leve como há tempos não acontecia. Colocou um antigo CD do Nando Reis para tocar e teve aquela sensação de prazer que algumas músicas especiais lhe davam em dias bons. Depois, segurando uma caneca de café em frente à janela, ficou se perguntando por que não ouvia aquele disco há tanto tempo. Como uma corrente de água quente que nos encontra mergulhando num mar gelado, recordações e sentimentos invadiram seus pensamentos e os remeteram àquele antigo amor. Lembrou do que essas músicas significaram e ficou surpresa de conseguir ouvi-las novamente sem sofrer. Gostou muito daquele pequenino, como nunca mais gostou de ninguém. Hoje, não podia afirmar se aquilo era amor ou deslumbramento. Não havia nada em comum entre os dois, além do sentimento de só terem um ao outro, contra todos em volta e tudo que acreditavam. Não sentia mais do que carinho pelas lembranças que trazia daqueles primeiros dias de enfrentamento de um mundo cinza e de uma casa colorida. Foram sentimentos assassinados, muito bem enterrados e depois prometidos a outras pessoas. Mas seriam sempre boas lembranças para se ter de manhã, tomando café e ouvindo Nando Reis.

"Amor eu sinto a sua falta
e a falta é a morte da esperança
Como o dia que roubaram o seu carro
deixou uma lembrança
que a vida é mesmo coisa muito frágil
uma bobagem uma irrelevância
diante da eternidade do amor de quem se ama

Por onde andei enquanto você me procurava?
E o que eu te dei?
Foi muito pouco ou quase nada
E o que deixei?
Algumas roupas penduradas
Será que eu sei que você é mesmo tudo aquilo que me falta?"

quarta-feira, novembro 04, 2009

Aqueles dois

Ligaram em uma terça-feira no início da noite. Fizeram um pedido inconveniente, não seria a primeira vez. Lembra daquele meio primo? Mais ou menos. Era apenas uma criança quando o conheceu. Morava consideravelmente longe, não eram assim tão parentes, há pelo menos oito anos que não o via.
Colocaram-o na linha. Agora tinha que ser simpática. Não foi difícil para ela, era assim naturalmente. Também não pareceu difícil para ele. Tinha um sotaque engraçado, do cerrado. Ele não sabia se ela era ela ou a irmã, que também conhecera. Ela não sabia se ele era ele ou o irmão.
Achou bizarro, mas depois esqueceu. Terminou a semana como todas as outras. Voltaram a insistir. O garoto estava sozinho entre os velhos, queriam que o levasse para sair. Ela precisava ir a uma festa promovida pelo trabalho, tinha ingressos, ofereceu, avisou que seria ruim, ele aceitou.
A sexta-feira chegou junto com um desencontro. Achou que ele não viria. Tudo bem, não estava com muito saco de cuidar de crianças mesmo. Foi a um bar antes da festa, onde costumava encontrar com amigos. Logo que chegou o telefone tocou. Houve um engano, ele estava a caminho. "
Que saco", comentou com alguém. 
Quando o viu levou um susto. Que olhos azuis. E que sotaque engraçado. Caminharam até o local da festa bem devagar. Demonstravam um interesse espontâneo um pelo outro. O que tem feito? No que se formou? Onde trabalha? Onde mora? Algumas pessoas a cumprimentaram no caminho e ele quis entender por que ela era tão popular. Movimento estudantil, essas coisas. Ah, você tem cara, eu nunca me meti nisso. As histórias dele eram de viagens. Ele não parecia fazer mais nada da vida além de viajar.
Ela achou o lugar da festa com um aspecto horrível, dos piores já presenciados. Nos primeiros 15 minutos lamentou tê-lo trazido ali. Então ele a convidou para dançar. Não, nem pensar. Isso aí eu não danço não. Ah, não vai me fazer essa desfeita.
Ela cedeu. Dançaram. Ele a ensinou, não com pouca dificuldade ela pegou o jeito. Resolveu entregar-se ao ridículo. Dançou muitas músicas. Paravam uma, dançavam cinco. Os colegas de trabalho observavam assustados. Quem é ele e o que ela faz dançando lá no meio?
Quando o último conhecido foi embora ele encostou o rosto em seu pescoço. Um beijo clichê, como tudo naquela história. Terminaram a música e sentaram para descansar. Acabara o assunto. Vamos embora? Não havia mais nenhum sentido em ficar ali.
Caminharam mais um pouco conversando. Fazia frio e os saltinhos dela estalavam nas calçadas do centro deserto da cidade. Antes que ela pudesse abrir a porta do prédio ele a parou, beijou-a, não queria deixá-la subir. Tudo bem. Sabia que iriam para a cama desde o primeiro contato por telefone, mas que subissem. Ele não quis. Queria tê-la ali mesmo. Resistiu. Cedeu. Aqueles olhos azuis.
Mais tarde, no quarto dela, ele dormiu no chão e ela na cama. Nenhum dos dois esperava algo mais do outro. Conversaram mais um pouco antes de dormir. De manhã acordaram cedo. Ela pulou para a cama dele. Rolaram um pouco, brincaram feito crianças. Ele questionava suas ideologias e ela o seu modo de vida descomprometido. Vieram buscá-lo e ela teve um sábado normal. À noite uma formatura. Domingo um almoço de família. Chegou atrasada, cumprimentou tios, primos e avós. Sentou ao lado do pai e, só depois, altiva, ousou olhá-lo. Ele correspondeu o olhar discreto. Tinham um segredo. Um delicioso segredo, que desafiava tudo representado naquela mesa. Família, moral, bons costumes e coisa e tal. Tudo muito comum, incluindo suas ousadias.
Passaram o dia juntos, sem beijos, sem sexo, como primos comportados. À noite se despediram, sem tocar no assunto. No dia seguinte ele se foi. E deixou nela uma vontade de ir junto. Não por ele, apenas por ir. Aí ela fez uma poesia assim:

"Chegou do nada com aqueles olhos do além
Pegou-me pela cintura
e nem perguntou se podia
Não perguntou se eu queria
e ainda contestou meus ideais
Depois foi embora
e deixou em mim
vontade de ir também"

terça-feira, novembro 03, 2009

Por que eu sou altamente influenciável
pelas coisas que leio,
que ouço
e que sinto:

Let me take you down
cause I’m going to strawberry fields
nothing is real, and nothing to get hung about
strawberry fields forever
strawberry fields forever
strawberry fields forever

Lennon e McCartney ~ Strawberry fields forever

sábado, outubro 31, 2009

Figurinha recortada

Quando eu já achava que você era uma página virada
Dobrei a esquina e algo doeu aqui dentro
Não era você (parece que você mudou de mundo)
Era o seu cenário sem você
Figurinha recortada do meu álbum.
Exatamente ali, naquela esquina,
Tinha um buraco bem feitinho
Com forma de você.
Quando volto pra casa com minhas sacolas de supermercado
Fico imaginando se você está por aí se escondendo atrás de arbustos
Atrás de postes
Se fingindo de pintura nas paredes
Aí eu tento afastar meus pensamentos como a um mosquito chato
Do mesmo jeito que você fez com a gente
Dói um pouco mais pensar assim
Mas depois eu guardo as minhas compras e esqueço de você

quarta-feira, outubro 28, 2009

terça-feira, outubro 27, 2009

Pensei em uma coisa sobre a qual jurei nunca mais escrever nenhuma palavra.
Desculpa, baby. Vai ficar pra outra vida.

Flores de plástico não morrem

Era meio dia e eu comia lasanha de microondas, de pijama em frente à televisão. Ela chegou toda animada. Começou a fazer um arranjo de flores de plástico vermelhas do 1,99 num vaso retangular.

- Flores de plástico não morrem, eu disse.

Ela me perguntou se estava bonito. Eu disse que o arranjo estava bom, mas que eu não gostava de flores de plástico. Minutos depois nós duas estávamos paradas na escada, de frente para o vaso, observando calmamente se ali era um bom lugar para deixá-lo. Parecia flor de cemitério, concluímos.

Ela decidiu tocar a campanhinha em frente e perguntar a opinião da vizinha, afinal também ficaria em frente à porta dela. A senhora que atendeu olhou uma vez, duas vezes e disse:

- Que coincidência você bater aqui e me perguntar isso, estava conversando com a minha irmã sobre quais flores dar pra minha mãe.
- Verdade? Onde ela mora?
- No cemitério. Ela morreu. Quer vender?
- Cinqüenta reais.
- Ok.

É... flores de plástico não morrem.

domingo, outubro 25, 2009

O sonho

Chamaram-na de ingênua mais de uma vez naqueles dias
Tentou se sentir ofendida, mas não conseguiu
Sabia que estavam certos
Achava que era assim por opção
Às vezes é mais fácil não ver
E às vezes é mais fácil tudo ver, a ponto de cegar
Disseram-lhe: “Você ainda vai se surpreender muito com as pessoas”
E disseram que ainda ia se surpreender muito com ela mesma
Então sonhou que sussurrava: “Não, não me acordem do meu sonho!”

sábado, outubro 24, 2009

devagar e sempre

Voltava pra casa, em meio às já tão conhecidas luzes alaranjadas do centro da cidade, cabeça baixa olhando sem ver as falhas decoradas das calçadas. Sentia-se uma garotinha. Sapatilha baixa, mochila nas costas, fones de ouvido e a velha sensação de disciplina que a levava cedo pra casa em dias de quietude. Pensava pela trecentésima vez naquele amor devagar e sempre que vivia há anos. Há muito tempo não sofria mais por ele. Era um sentimento divertido e prazeroso, matreiro e inocente. Preferia assim, gostava de deixar as coisas podres para outros casos. Aquele não, aquele era imaculado. Tinha um altar especial em seu coração. E se isso não servisse de nada, ao menos inspiraria poesias.

sexta-feira, outubro 23, 2009

domingo de sol

Encontraram-lhe num domingo desses, num desses que faz sol
Ele devia estar sorrindo, animado como costumava ser
Perguntaram-lhe dela e ele fez aquela cara de constrangimento
Não devia haver muito que se falar, afinal não havia nada pra ser falado
Será que ele também pensa no quão estranho é não se verem mais?
Nessas situações o mundo se torna sempre muito pequeno
O melhor mesmo seria mudar de mundo
Ou mudar o mundo

Bossa

"Atenção
As pessoas não precisam
Ser iguais às outras
Aceite ou não
Mas você é única

No mundo assim
Uns são mais
Coordenados, determinados
Obcecados
E outros atrás
Vão levando a vida
E quem ousa dizer
Que é pior?
Há quem construa aviões
Escreva as revistas
E outros dedilham violões

Eu digo
Hei!
Você que sabe tudo
Me diga como perguntar
Se eu não sei
Você que pensa em tudo
Me mostre o quanto pode amar"

(Bossa - Duca Leindecker)

segunda-feira, outubro 19, 2009

Derrubou-me de um barranco
Outra vez
Tomou conta do meu corpo uma tremedeira involuntária
Soluços engarrafaram-se na garganta
Frio
Vou chorar hoje
E, depois, nunca mais
Ponto final
Parágrafo
E uma frase mais animada.

domingo, outubro 18, 2009

Debaixo D'agua

Debaixo d'água tudo era mais bonito
Mais azul, mais colorido
Só faltava respirar
Mas tinha que respirar

Debaixo d'água se formando como um feto
Sereno, confortável, amado, completo
Sem chão, sem teto, sem contato com o ar
Mas tinha que respirar
Todo dia (...)

Debaixo d'água por encanto sem sorriso e sem pranto
Sem lamento e sem saber o quanto
Esse momento poderia durar
Mas tinha que respirar

Debaixo d'água ficaria para sempre, ficaria contente
Longe de toda gente, para sempre no fundo do mar
Mas tinha que respirar
Todo dia (...)

Debaixo d'água, protegido, salvo, fora de perigo
Aliviado, sem perdão e sem pecado
Sem fome, sem frio, sem medo, sem vontade de voltar
Mas tinha que respirar

Debaixo d'água tudo era mais bonito
Mais azul, mais colorido
Só faltava respirar
Mas tinha que respirar
Todo dia

Agora que agora é nunca
Agora posso recuar
Agora sinto minha tumba
Agora o peito a retumbar
Agora a última resposta
Agora quartos de hospitais
Agora abrem uma porta
Agora não se chora mais
Agora a chuva evapora
Agora ainda não choveu
Agora tenho mais memória
Agora tenho o que foi meu
Agora passa a paisagem
Agora não me despedi
Agora compro uma passagem
Agora ainda estou aqui
Agora sinto muita sede
Agora já é madrugada
Agora diante da parede
Agora falta uma palavra
Agora o vento no cabelo
Agora toda minha roupa
Agora volta pro novelo
Agora a língua em minha boca
Agora meu avô já vive
Agora meu filho nasceu
Agora o filho que não tive
Agora a criança sou eu
Agora sinto um gosto doce
Agora vejo a cor azul
Agora a mão de quem me trouxe
Agora é só meu corpo nu
Agora eu nasco lá de fora
Agora minha mãe é o ar
Agora eu vivo na barriga
Agora eu brigo pra voltar
Agora
Agora
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Arnaldo Antunes

sexta-feira, outubro 16, 2009

A noite

Música. Sorrisos. Frases no ouvido. Ensaios. Sussurros. Arrepios. Toques de mãos. Beijos. Taxi. Elevador. Mãos. Peles. Cheiros. Roupas. Beijos. Línguas. Força. Pelos. Suor. Cabelos. Sexo. Madrugada. Sono. Abraços. Peles. Insônia. Cobertores. Respiração. Luz. Palavras. Roupas. Elevador.

quarta-feira, outubro 14, 2009

Infinita Highway

" ...Eu vejo um horizonte trêmulo
Eu tenho os olhos úmidos
Eu posso estar completamente enganado
Eu posso estar correndo pro lado errado
Mas "a dúvida é o preço da pureza"
É inútil ter certeza
Eu vejo as placas dizendo
"não corra, não morra, não fume"
Eu vejo as placas cortando o horizonte
Elas parecem facas de dois gumes

Minha vida é tão confusa quanto a América Central
Por isso não me acuse de ser irracional
Escute, garota, façamos um trato:
Você desliga o telefone se eu ficar muito abstrato
Eu posso ser um Beatle, um beatnik
Ou um bitolado
Mas eu não sou ator
Eu não tô à toa do teu lado
Por isso, garota, façamos um pacto
De não usar a highway pra causar impacto

Cento e dez, cento e vinte
Cento e sessenta
Só prá ver até quando o motor agüenta
Na boca, em vez de um beijo,
Um chiclet de menta
E a sombra do sorriso que eu deixei
Numa das curvas da highway"
Naquela noite o silêncio gritava tão alto que eu não pude dormir. Minhas lágrimas secas ficavam presas na testa e isso fazia minha cabeça doer. Nossos sentimentos escapavam voando pelo buraquinho do vidro quebrado na janela e nem um de nós esboçava movimentos para impedi-los. Eu tentei acho, mas você dormia. Talvez você tenha tentado em algum dos momentos em que eu adormeci – ou não. Depois, à luz do dia, nós dois parecíamos seguros naquele silêncio todo. Não sei os seus, mas meus pensamentos eram histéricos. Então você se foi. Com uma raiva de mim que, na verdade, era raiva de você mesmo. E enquanto nosso amor fugia, eu pensava em uma poesia. Um poema que te dissesse que eu gostava realmente de você.
Morreu. De uma forma ridícula. Sem honras, sem glória. Morreu como morre um cão magro. Esmagado no meio da rua. Morreu.

segunda-feira, outubro 12, 2009

E o que é que eu faço com essa saudade safra de 1976?

Rivers of Babylon

Naquela noite estávamos lá mais por conveniência do que por vontade própria. Eu mesma só fui para acompanhar uma amiga. Comemos uma coisa estranha e pesada e já estávamos indo embora quando entramos em um cenário inusitado. Era um lugar muito simples, espaço da comunidade do bairro. Quase todas as pessoas presentes eram de meia idade ou mais. Elas estavam sentadas em bancos compridos de madeira ou em pé conversando. Dois casais dançavam uma música romântica e alguns cuidavam do bar. Então, de repente, começou a tocar Rivers of Babylon e, como se ensaiado, todos se levantaram e começaram a dançar freneticamente. Levantavam os braços apenas até a altura dos ombros e chacoalhavam as mãos, indo para frente e para trás. Fiquei estática. Era a única que não começara a dançar imediatamente. Muitos me convidaram, teria sido divertido, mas não havia como eu simplesmente começar a dançar. Não seria espontânea como eles. Fiquei ali parada observando por duas músicas. Que surpresa tive com aquelas pessoas. Elas estavam felizes, a maneira delas.

sexta-feira, outubro 02, 2009

Narciso

Já passa da meia noite e eu jurei que hoje ia dormir cedo. Em minhas intenções eu teria uma noite produtiva, mas não deu. Outra vez, num daqueles ímpetos narcisistas, fiquei relendo meu blog, retroalimentando minha mente de idéias para escrever sobre mim. Quando decido ter uma noite proveitosa normalmente o dia não foi tão cansativo e eu chego ao meu quarto no início da noite (nunca tão início) com considerável disposição. Aí reside o grande problema: minha energia se reverte em muita vontade de fazer coisas inúteis, como, por exemplo, assistir a novela do Manuel Carlos em stand by (palavras de um amigo), costurar um botão há tempos separado de seu casaco (que não tinha a mínima necessidade de ser consertado logo nessa noite), fazer uma lista dos livros que mais gosto (e esquecer a metade) ou escrever mais um texto inútil para um blog sem muita utilidade (esse).

Desliguei a televisão. A voz do apresentador já me dava dor de cabeça. Assisti o primeiro capítulo da nova minissérie. Achei uma merda, mas gostei. Eu também não vejo problema algum em ter dois namorados e não me importo que meus namorados tenham outras namoradas. Acho que todo mundo deveria namorar quem quisesse. Minha filosofia é que amor a gente só multiplica, nunca divide. Isso não significa que eu seja adepta da putaria, mas é bem difícil de fazer as pessoas entenderem. Talvez a Globo me ajude, espero que ela não estrague tudo outra vez.

A casa está estranhamente silenciosa. Acho que estou aqui há muito tempo e todos já foram dormir. Estou com vontade de tomar um banho, talvez eu durma melhor, mas eu não devo fazer isso. Quem convive comigo sabe que eu tenho certo TOC com banhos. Isso não faz de mim uma pessoa que precisa de tratamento, mas me causa um pouco de irritações na pele.

Alguém chegou ou saiu agora do prédio onde moro. Ouvi o portão bater e isso foi realmente impressionante, pois ele fica bem longe daqui. Pode ter sido um ladrão, uma amante, um estudante dedicado, um doente, um trabalhador, não sei, não conheço meus vizinhos.

Ontem, no caminho de volta para casa, apertei os passos para chegar mais rápido. Caía uma chuva muito gelada que dava um sentimento de angústia. Lembrei de uma das sensações mais marcantes que vivi. Hoje de manhã, fazendo compras, lembrei de outra experiência que ficou gravada e que, coincidentemente, aconteceu na mesma semana. Na época registrei essas vivências e agora, ao invés de escrever novamente, apenas as reapresento aqui.

Quinta-feira, Janeiro 17, 2008

Peripécias da Solidão II

Siga em frente, agarre uma cestinha e vire à esquerda. Vamos! Você pode fazer isso! Afinal já fez muitas vezes. Mas agora é diferente, é a primeira de muitas outras vezes. E as pessoas em volta não podem imaginar o quão idiotas são os seus pensamentos. Vire à direita agora. Agarre-se na cestinha para não cair. Você precisa de macarrão instantâneo e mais algumas coisas que venham com a quantidade de uma só porção e possam ser preparadas no microondas. Quem sabe umas verdurinhas? Sim, elas estão logo à esquerda e não vão permitir que você fique desnutrida. Uma cenoura, um pimentão. Parece exagero um pimentão inteiro só para você, mas o homem que pesava os vegetais demonstrou curiosidade nas quantidades empacotadas. Agora ao macarrão instantâneo! E no caminho você lembrou que um pouco de café solúvel e leite seriam úteis. Mas a caixa de leite e o pacote de açúcar parecem enormes. Como nunca percebeu? O leite não tem jeito, não vendem em quantidades menores. Acabou optando por um frasquinho de adoçante dietético. “Vai acabar emagrecendo”, pensava quando passou pelos minipãezinhos. Ó, quase se esquecera deles! Meia volta: ainda bem que inventaram a margarina em embalagens pequenas. Agora ao macarrão! No caminho uma promoção de ovos com caixinhas de meia dúzia (Mas que abençoada idéia!). Finalmente o macarrão instantâneo. Cinco pacotes: um para cada dia da semana. “Vai acabar enjoando”, pensava quando surpreendeu o olhar curioso do pai de família, que empurrava um carrinho cheio, sobre a sopa individual express que você descobriu.

Quarta-feira, Janeiro 16, 2008

Peripécias da Solidão I

Final de tarde. Naquele dia incrivelmente sobrara tempo. Não que não houvesse o que fazer, havia uma vida inteira pra reconstruir... Sobrara tempo porque jogara tudo para o alto. Dane-se! Simplesmente percebera que muitas das coisas com as quais costumava se preocupar não faziam sentido algum.
Naquele final de tarde o sol parecia gritar: “Estou fazendo um final de tarde!” A Luz que entrava pela sacada do estranho apartamento aprofundava ainda mais o silêncio. Ligar a televisão ou o rádio - uma tentação pecaminosa. Aquele era o próprio santuário da solidão.
Que estranho vazio. Que estranha inércia a impedia de acabar com ele. E o celular ali, resplandecendo a ameaça de tocar.

Terça-feira, Janeiro 15, 2008

O maior vazio que se pode sentir é a falta de um lugar para voltar. Pode parecer divertido no primeiro dia e ainda é divertido no segundo. Mas no terceiro, após um dia cansativo de trabalho, após enfrentar uma chuva gelada na volta para casa (casa...?), vem o vazio.De repente você se dá conta de que não vai tomar um banho no chuveiro com o qual se acostumou, não vai abrir o armário e pegar o pijama mais confortável, não vai abrir a geladeira com desenvoltura, pegar o que quiser e fechá-la com o pé. Você não vai mais ligar a tv no canal que quiser e passar o resto da noite no MSN conversando com um colega qualquer.
Você vai se pegar sentado no pé de uma cama estranha, em um quarto estranho da casa de uma pessoa estranha. Vai estar cansado, mas a sua vergonha de se deitar vai ser maior. Nesse momento você vai lembrar de como os livros ficaram legais arrumados da última forma que você os deixou, vai lembrar do violão do qual, embora estivesse a tempos empoeirado e esquecido em cima do armário, você gostava para valer. Vai doer mesmo no momento em que você se der conta de que nunca mais vai deitar na sua antiga cama. E sabe o que é ainda pior? O mundo. Ele não vai parar porque você está com cara de choro. E essa é a forma mais simples e batida de aprender que o mundo é cruel.
Mas ao poucos, a sua vida, como um muro de tijolos que desmoronou, vai sendo reconstruída. Logo você se acostuma com um novo chuveiro, arruma uma nova forma de almoçar, deixa o seu cheiro em um novo cobertor, encontra novas pessoas para amar, perdoa e é perdoado pelas antigas pessoas que você amava.


Na época um amigo comentou um dos textos assim:

Há dias em que se joga tudo pra cima...
E as coisas caem perfeitamente...
Em seus devidos novos lugares...

terça-feira, setembro 29, 2009

“Todos precisam ter alguém para conversar – disse a mulher. – Antes, tínhamos a religião e outras coisas sem sentido. Agora, cada um precisa ter com quem falar abertamente. Pois quanto mais bravura alguém tiver, mais solitário vai ficando.”

(Ernest Hemingway - Por quem os sinos dobram)

sábado, setembro 26, 2009

sexta-feira, setembro 25, 2009

Mamãe coragem

Para aquela moça que diz que eu nunca posto nada pra ela, essa música tão especial pra mim.

"Mamãe, mamãe não chore
A vida é assim mesmo eu fui embora
Mamãe, mamãe não chore
Eu nunca mais vou voltar por ai
Mamãe, mamãe não chore

Pegue uns panos pra lavar, leia um romance
Veja as compras do mercado, pague as prestações
Ser mãe é desdobrar fibra por fibra os corações dos filhos
Seja feliz
Mamãe, mamãe não chore
Eu quero, eu posso, eu quis, eu fiz, mamãe seja feliz
Não chore nunca mais, não adianta
Eu tenho um beijo preso na garganta
Eu tenho um jeito de quem não se espanta
Braço de ouro vale dez milhões
Eu tenho corações fora do peito

Pegue uns panos pra lavar, leia um romance
Leia Elzira morta virgem, O Grande Industrial
Eu por aqui vou indo muito bem
De vez em quando brinco carnaval
E vou vivendo assim felicidade na cidade
que eu plantei pra mim
E que não tem mais fim, não tem mais fim."

~ Caetano Veloso e Torquato Neto ~
Há algumas coisas que eu nunca faço,
mesmo que me custem a felicidade.
Talvez eu ache que se as fizesse
minha felicidade seria um tanto plástica
E instável

Não sei, mas acho que cansei
É triste isso, dá vontade de chorar,
mas eu já vim até aqui
e vou desistir agora.

terça-feira, setembro 22, 2009

Dedicatória

No dia em que Minoru começou a me ditar a história de sua família, pediu-me que ela fosse dedicada a sua mãe, Timo. Eu queria dedicar meu trabalho a ele.
Por isso ficou assim: A Timo e Minoru.

segunda-feira, setembro 21, 2009

Parece que a minha vida quer se tornar um poema. Juro que não faço força para isso, mas as evidências saltam aos meus olhos de manhã à noite. Começando pela nova amiga, a insônia e, depois, passando pela velha pasta preta onde guardo tudo sobre O livro. Hoje de manhã fui procurá-la na estante, afastei a grossa camada de pó e larguei-a em cima da cama. Agora ela está ali, olhando para mim com aquela cara, esperando que eu a abra e comece a trabalhar.

domingo, setembro 20, 2009

Ela não acredita no amor

Certo domingo minha família paterna estava reunida em uma comprida mesa comendo churrasco com maionese. Conversa vai, conversa vem, ela nos contou que havia assistido uma reportagem sobre o homem mais gordo do mundo que morava no México e havia estado no Guinness Book duas vezes. Por ser o mais gordo, com 500 quilos, e por ser o que mais conseguiu emagrecer, 200 quilos. Falou que ele tinha uma mulher bonita.

– O que faz uma mulher assim com um cara desses? – pergunta alguém.
– É só para fazer propaganda, responde ela.
– Propaganda de quê? Da banha dele?
– Não. Pra fazer marketing pra ela.
– Ah, tá.

(risadas)

Depois fui contar pra ela sobre um relacionamento conturbado que eu estava tendo (relacionamentos conturbados eu? Imagine...). Na segunda frase, talvez terceira, ela me interrompeu.

– Quer um conselho bem sincero meu? – perguntou ela.
– Quer que a gente seja sincero ou quer continuar sendo nossa amiga? – brincou meu irmão menor que andava por ali.
– Sério. Você quer um conselho? Vou te dar: larga ele.

(e ponto final)

O livro

Hoje o velho fantasma de um livro que tenho que escrever voltou a me ligar e, pela milésima vez, prometi a mim mesma que agora vou terminá-lo.
Acho que existem dois grandes motivos para eu nunca terminá-lo. Primeiro porque, lá no fundo, sei que a hora em que o der por acabado, terei nas mãos a pior coisa que já escrevi – sim, acho que ele está realmente ruim e pequeno. Segundo porque essa história de ser uma jovem, bebendo e tentando ser escritora, lembra-me muito Bokowski no prefácio de Pergunte ao Pó. Admito que gosto desse ar romântico da vagabundagem literária.

quinta-feira, setembro 17, 2009

Não sei por que sinto essa necessidade louca de escrever
Minhas palavras escritas são as que pulsam na garganta
Querem ser gritadas
E hoje eu queria gritar obrigada
Pelas lágrimas de ontem, pelo sorriso de hoje, pela esperança de amanhã
Já sinto saudades

sábado, setembro 12, 2009

A festa

Nos cinco minutinhos em que fiquei sentada de longe observando, me senti confortável como se estivesse em casa. Eram meus irmãos. Velhos camaradas. Depois de quatro anos, conhecia todos, com seus defeitos e qualidades, e eles a mim.

Uma colega um pouco turista, que nos deixou nos primeiros períodos, perguntou sobre algumas meninas. Aí me dei conta de que nenhuma delas estava mais conosco. Quantos ficaram pelo caminho, pensei. Mas os essenciais, esses estavam todos ali, com dançinhas engraçadas, brindes ao sexo e brincadeiras infantis. Ah, as nossas infantilidades. Às levávamos muito a sério. Brincávamos de Adoletá nas aulas de fotografia, mas apenas no intervalo.

Éramos a família João Bolão, das conversas jogadas fora sob a árvore Jambolão no pátio do Ielusc. Fazíamos as melhores festas e as melhores discussões sociológicas. Fazíamos grupos de estudo nos sábados à tarde só para não perder o posto de a melhor turma de todos os tempos. E éramos felizes assim.

Caminhando as três quadras que separavam o local da festa de minha casa, me senti bem contente. Eu usava meu sobretudo branco de lã e meu tênis preferido. Na mão, carregava, batendo no chão como uma bengala, o meu mais novo guarda-chuva de flores cor-de-rosa. Na cabeça, vinha aquela música especial da Adriana Calcanhoto que durante tanto tempo me acompanhou. Também ela tocou por lá.

“Eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que eu nem sei o nome
Cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo, cores...”

sexta-feira, setembro 11, 2009

Ele quase sempre demonstra ser bem durão
Não sabe lidar com os melodramatismos dela e sempre tenta fazer uma piada
Mas aí ela emudece e ele fica com medo de tê-la deixada braba
Então ele tenta confortá-la com considerações sérias
Aí ela ri
Eles passam pelas mesmas dúvidas da pré-adultescência
Só que ela fala
E ele encosta a cabeça no travesseiro ao seu lado e fica quietinho
Às vezes solta um “sei lá”
E isso basta para ela entender tudo que ele sente
Eles evitam dar nome ao relacionamento que têm
Com o nome viriam as regras
E nada mais teria graça
Eu lembrei dos dois ainda um pouco crianças ajudando na mudança de uma antiga colega
Lavando a louça do almoço e sentados no ponto de ônibus sozinhos e sujos
Lembrei que eles se conheciam há um tempão e que talvez tenha sido por isso que as coisas aconteceram tão naturalmente quando se viram
Ela pensa sobre quando ele for embora
E pensa que pode ser que ela vá antes
Mas ela tem o pressentimento de que nunca mais vão sair um da vida do outro
Por que a corrente que os une parece assim...
leve, invisível e muito forte

Lembranças

Lembrei deste conto da Clarice Lispector que uma amiga me apresentou. Lembrei de como eu parecia com a personagem durante uma fase da adolescência.


Felicidade Clandestina


Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um
livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim um tortura chinesa.
Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E, completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança de alegria: eu não vivia, nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono da livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

Um dia ruim

Quando ela chegou em casa o estômago doía um pouco. Já havia relaxado do nervosismo de umas horas atrás, mas tinha a sensação de ter apanhado. Tinha na garganta o gosto levemente salgado das lágrimas choradas no banheiro. Não sabia por que ia ao banheiro chorar se a cara vermelha ficava denunciando o crime pelo resto do dia. Quando será que esta sensação de ser tão criança iria passar? Fazia coisas de bastante responsabilidade para a idade que tinha, mas a sensação de ser uma menina nunca passava. Sobretudo nos momentos em que ia chorar no banheiro.

Quando pequena teria enfiado a cara nos livros do Harry Potter e imaginado que um dia tudo mudaria num passe de mágicas. Hoje à noite, depois de alguns anos, deu-se conta de que não praticava mais aquelas fantasias de ser outra pessoa e estar em outro lugar. Será que isso significava que sua realidade estava mais fácil de ser suportada ou que finalmente havia se acostumado com ela? Será que significava que havia crescido?

Às vezes sente a própria vida como quem, de repente, sente os sapatos antes imperceptíveis, e fica procurando um sentido para morar onde mora, trabalhar onde trabalha e batalhar pelo que batalha. Pelo quê batalha? O quê é que tanto espera? Tem sempre a sensação de que algo bom a aguarda ali em frente e, de fato, as coisas têm se apresentado melhores com o passar do tempo, umas após outras. Mas de que serve tudo isso? Será que vai acabar uma velhinha comum cheia de experiências coerentes e bons conselhos para dar?

Nos últimos anos vem largando a família, devagar e sempre. Parece que andou lendo e conhecendo coisas sozinha por aí e esses companheiros naturais passaram a não ter nada em comum, além da história. Ela sabe que isso não é pouco, mas acaba dedicando a essa compreensão apenas um almoço por semana, aos domingos. Os grandes amigos da faculdade também têm escapado por entre os dedos. Já não faz mais sentido chamar o velho colega para tomar um café quando se sente triste. Seus assuntos já ficaram tão desatualizados... E as fotos no Orkut agora mostram mundos e amigos diferentes. Com o passar do tempo, cada um vai se especializando cada vez mais em si mesmo.

Pode ser que ela compre mais sapatos – é incrível como eles nunca são o bastante.
Pode ser que vá embora com alguém.
Pode ser que vá embora sozinha.
Pode ser que ela queira mesmo é morar num sítio, plantar maconha, criar galinhas e ouvir Raul o dia inteiro.

Mas, em princípio, ela vai dormir, por que tem nas pálpebras aquele peso da angústia. Não queria dormir assim. Amanhã vai acordar triste e quieta. Depois vai nadar.

Réu confessa

Que a verdade seja dita: o título da matéria abaixo é de autoria do jornalista Leonel Camasão. Eu roubei.

terça-feira, setembro 08, 2009

Censura também se aprende na escola

Sem decorações verdes

O curso de Comunicação Social não será incorporado à Univille. Assim abro a matéria que desde o começo tinha como intenção informar os acadêmicos sobre os novos passos da parceria entre Bom Jesus/Ielusc e Univille. Infelizmente percebi uma incoerência nas entrevistas do reitor Paulo Ivo Koehntopp e do diretor Tito Lívio Lermen. Suspeitando dessa falha de comunicação interna, a coordenação da Revi decidiu, como procedimento padrão da profissão, checar a veracidade das informações apresentadas pelo reitor. Infelizmente foi confirmada a falha de comunicação interna da reitoria e, para não expor o descuido da universidade, o diretor Tito Lermen e o reitor Paulo Ivo resolveram não aceitar a publicação dessa matéria na revista eletrônica. Acho importante repassar os dados das entrevistas, até mesmo porque não há nenhuma informação prejudicial às instituições. Em nenhum momento pretendi ludibriar os estudantes, segue então a matéria original com os dados até então apurados.

Bom Jesus/Ielusc e Univille criam atividades em conjunto

Durante o primeiro semestre de 2009 uma série de especulações sobre a parceria entre Bom Jesus/Ielusc e Univille ganharam consistência nos corredores dessas instituições. Embora a coordenação do curso de comunicação social sempre tenha colaborado com sugestões e documentos, os primeiros debates sobre o assunto aconteceram em “reuniões de cúpula”, explicou o atual coordenador de jornalismo Silvio Melatti. Esse excesso de precaução da alta gestão formada pelo reitor Paulo Ivo Koehntopp da Univille e o diretor Tito Lívio Lermen do Ielusc gerou, para professores e alunos, dúvidas sobre o futuro do curso de Comunicação Social e, claro, sobre as reais intenções dessa possível união. No dia 13 de agosto, porém, uma nova reunião foi realizada com a presença de uma comissão de professores do Ielusc e de um grupo de profissionais da Univille. Foram debatidas novas estratégias para o projeto, mas essas mudanças não foram repassadas ao reitor Paulo Ivo.

Assim como era no princípio...

A parceria segue um termo de contribuição que foi assinado em 19 de setembro de 2008. As instituições estabeleceram que toda nova atividade ou ação desse convênio deve ser elaborada através de processos aditivos e contratos de comodatos. Na visão do diretor geral, Tito Lívio Lermen, o curso de Comunicação Social foi escolhido para fazer a parceria “caminhar rapidamente”. O pastor afirmou que no início a intenção era realmente dividir a gestão do curso, mas nesse momento ele se sentiu “um pouco inseguro”. De acordo com o diretor, as diferentes práticas e culturas de ensino fizeram com que as negociações começassem novamente. Antes de concluir a parceria e dividir a gestão, notou-se a necessidade de avaliar e planejar o assunto de forma mais consistente. Foram discutidas, então, as questões financeiras, técnicas e trabalhistas dessa possível união. Entre outros processos legais, os órgãos normativos da educação do país não permitem simplesmente unir as faculdades, explicou o pastor.


Palpável


A primeira ação conjunta foi o vestibular de 2009 e o primeiro termo aditivo foi produzido no dia 10 de fevereiro de 2009. De acordo com o termo, as faculdades passaram a compartilhar o acervo de suas bibliotecas. Foi estabelecido que cada instituição poderia emprestar até dez livros da outra. O sistema está funcionando desde fevereiro. A disponibilidade do material é verificada através dos sites das respectivas bibliotecas. O material é entregue por um motoboy e as normas de devolução são as mesmas para os acadêmicos de ambas as instituições. Apesar de a iniciativa estar funcionando, ainda não é possível um estudante do Bom Jesus, por exemplo, solicitar diretamente um material na biblioteca universitária. A negociação está sobre responsabilidade exclusiva das bibliotecárias Maria da Luz Machado (Ielusc) e Karyn Munik Lehmkuhl (Univille). Segundo Maria, já foi cogitado em reuniões com a direção essa possibilidade, mas por enquanto isso não é possível, pois existem diferenças entre as estruturas das faculdades, como nos sistemas de informática utilizados. A bibliotecária também ressaltou que essa mudança ainda não é necessária, pois, a demanda de empréstimo não ultrapassa o limite de dez livros determinado pelo termo aditivo.

Os boatos e as iniciativas

Na primeira reunião do conselho de professores, que ocorreu na primeira semana das férias de julho, os professores souberam que o próximo vestibular para o curso de comunicação social já seria feito com a gestão dividida entre Bom Jesus/Ielusc e Univille. Sem informações concretas e com dúvidas, os professores do Bom Jesus resolveram se articular. Sônia Regina de Oliveira coordenadora de Publicidade e Propaganda comentou ter ouvido que na Univille já se discutia o setor onde o curso de comunicação seria instalado. A coordenadora afirmou que a intenção do corpo docente é garantir um projeto político-pedagógico de qualidade. Uma simples incorporação não asseguraria esses valores. Para ela, além de possuírem dimensões diferentes, as duas instituições usufruem de culturas organizacionais incompatíveis.

Preocupados com a manutenção do curso, uma comissão formada pelos professores e coordenadores do Ielusc se uniu para elaborar sugestões que permeiam essa parceria. Gleber Pieniz, Juliana Bonfante, Luis Fernando Assunção, Maria Elisa Máximo, Sílvio Luiz Melatti e Sônia Regina redigiram um documento com sugestões para auxiliar o diálogo entre as duas instituições. Entre as reivindicações desses professores, estava pautada a necessidade da Univille formar um grupo com os mesmos moldes para interagirem no debate. Foi sugerida a criação de novos cursos, como de pós-graduação e, também, mudanças no compartilhamento das bibliotecas, visando à possibilidade de alunos e professores transitarem nesses locais e utilizarem livremente seus materiais.

A comissão pretendia explorar a possibilidade de, através da parceria, manter dois cursos de comunicação social. Um no período matutino, de responsabilidade da Univille e, outro, que continuaria sob gestão do Ielusc. Os laboratórios do Bom Jesus seriam utilizados pelos acadêmicos da Univille, já que a universidade não possui uma infra-estrutura especializada em comunicação. Silvio Melatti, coordenador do curso de Jornalismo, compreende que essa seria uma boa medida para ambas as instituições. A utilização dos laboratórios do Ielusc, “estrutura ociosa durante o dia”, comentou Silvio, e a edição da revista Rastros com o selo da Univille são exemplos de atitudes que, segundo Melatti, favoreceriam as duas entidades. O coordenador salientou que o Ielusc possui um histórico de ex-acadêmicos bem empregos no mercado e um conceito de qualidade reconhecido pelo Mec. A partir desses fatores, a comissão reconheceu que não haveria como aceitar uma incorporação sem debater os temas sugeridos.

Na última reunião das férias, porém, o pastor Tito informou que a reitoria da Univille admitiu não haver mercado para dois cursos de comunicação na cidade. Sendo assim, o clima de boatos esfriou. Outro fato observado por Silvio Melatti é que, até então, nem a Puc (Pontifícia Universidade Católica) e nem a Anhanguera se manifestaram realmente no que diz respeito a abrir novos curso de comunicação em Joinville. “Geralmente quando um curso se instala em uma cidade menor, os professores dessa área são sondados, e até agora não recebemos nenhuma informação sobre isso”, reconheceu. As propostas elaboradas pelos professores do Ielusc e enviadas ao Pastor Tito, seriam, mais tarde, discutidas na reunião do dia 13 de agosto. Nesse novo debate estavam presentes, além da comissão do Bom Jesus, a pró-reitora Ilanil Coelho, o professor Alexandre Cidral, a coordenadora de vestibular Silvia Matos e o gerente de Marketing Silvio Simon, todos funcionários da Univille.

De acordo com Maria Elisa Máximo, o plano de ações elaborado pelos professores perdeu um pouco de sentido visto que, a Univille não pretende abrir um curso próprio de comunicação social. A professora explicou que a primeira prerrogativa da comissão ielusquiana foi incentivar a universidade a compor um grupo de professores para debater o tema, no entanto, as pessoas que formam essa outra comissão estão ligadas aos departamentos administrativos da Univille. Maria Elisa reconhece que, nessa última reunião do dia 13 de agosto, pela primeira vez, os professores tiveram contato direto com as propostas da reitoria, até então, todas as informações recebidas haviam sido mediadas, de alguma forma, pela hierarquia da instituição luterana.

Sobre o dia 13 de agosto

A ideia de dividir a gestão do curso de comunicação nem foi cogitada na reunião, explicou a professora Maria Elisa. De acordo com as sugestões enviadas pelo Bom Jesus, as comissões estabeleceram novas metas como imprimir a revista Rastros na Univille, criar cursos de extensão, elaborar pesquisas acadêmicas e produzir revistas com artigos produzidos pelos estudantes. Também foi cogitada a elaboração de um curso superior de Relações Públicas dentro da área de comunicação social. Mas o objetivo mais discutido tratou da criação de uma emissora de rádio e TV. Esse projeto contaria com os direitos de concessão da universidade e a atuação técnica dos profissionais e acadêmicos do Ielusc.

De acordo com o professor e coordenador do núcleo de pesquisas do Bom Jesus, Leandro Otto Hofstätter, a intenção é futuramente produzir uma programação para rádio e TV na Web. Obtendo assim, um know how para suprir a demanda de conteúdo após a concessão. Para ele, está na hora das duas faculdades, com “perfil comunitário”, desfrutarem desses direitos e, para isso, Leandro comenta que Tito e Paulo Ivo já estão entrando em contato com o prefeito Carlito Merss e a senadora Ideli Salvatti. “Nesses assuntos de concessão é preciso ter calibre político”, reconheceu. Esse processo de instalar a rádio e TV na Web ainda continua no campo da análise, pois, depende da atualização dos laboratórios e de um estudo de custos, já que a instituição precisará de bolsistas e professores. Ou seja, sobre a parceria, de concreto mesmo, sabe-se que as bibliotecas continuarão compartilhando livros através de um motoboy e que, pelo menos em 2010 o Bom Jesus não receberá nenhuma decoração verde.

O mal entendido

Embora diretor e reitor parecessem não falar a mesma língua, as instituições seguirão com as novas atividades e não dividirão a gestão do curso.

No dia 14 de agosto o pastor disse à Revista Eletrônica que o ensino superior no Brasil vive um momento em que é necessário fazer parcerias para investir na educação sem deixar uma marca se tornar superior à outra. O pastor concluiu que esses debates são lentos, pois começam na alta gestão (reitores e diretores) e depois precisam passar pela “estrutura de ensino”, como coordenações e corpo docente. Nesse momento surgiram ruídos que, fizeram o cacique do Bom Jesus puxar o barco e reiniciar o debate. De acordo com o pastor, nesse novo contexto de metas, foi cogitada inclusive, a possibilidade de se criar um curso de Tecnólogo em Oftálmica, unindo o núcleo de enfermagem do Ielusc e o de medicina da Univille. Foi falado também, sobre a inauguração de uma unidade de ensino médio do Bom Jesus no campus da Univille de São Francisco do Sul. Para isso, revelou Tito, as direções já tomaram algumas providências como conversar com a prefeitura da cidade.

Tendo em vista as novas propostas, foi descartada a divisão do curso de comunicação pelo pastor. Só faltou os responsáveis da Univille informarem o reitor Paulo Ivo. Sem saber das novas prioridades, Paulo Ivo cedeu uma entrevista no dia 25 de agosto à Revi, onde expôs suas antigas propostas.

Paulo Ivo Koehntopp apresentou um discurso contrário ao do pastor luterano, lembrando que faltava somente decidir a “existência física” do curso, o que considerou apenas um “detalhe”. “Transferir todos os cursos de uma só vez seria uma pancada”, disse o reitor, “por isso escolhemos como projeto piloto os cursos de Jornalismo e Publicidade”. Paulo Ivo explicou que Univille e Ielusc têm características particulares de gestão e isso seria debatido pelos professores de ambas as instituições, mas “o que tinha que ser discutido pela direção já foi discutido”. O reitor comentou que a Univille tem a possibilidade de criar e absorver cursos como os do Ielusc, mas com a parceria as instituições poderiam economizar esforços e recursos, ampliando suas áreas de abrangência. O curso de Comunicação Social, continuou Paulo Ivo, poderia ser transferido totalmente para o campus universitário, assim como a unidade do Bom Jesus Centro poderia passar a ser administrada pela Univille. Os planos do reitor eram de metas de curto prazo e uma delas dizia respeito ao vestibular de 2010, quando já se pretenderia oferecer o curso de Comunicação sob gestão da Univille: “essa é a vontade do Paulo Ivo”, concluiu, falando em terceira pessoa.

De acordo com Paulo Ivo (desatualizado) depois da transferência do curso de Comunicação, a pretensão da parceria era de passar a gestão de todos os cursos superiores do Bom Jesus para a Univille em 2011. Sobre o corpo docente, o reitor salientou que já havia professores dando aulas nas duas instituições e que talvez o único problema fosse o salário: a base de remuneração na Univille é um pouco menor, embora o número de benefícios seja maior – o que, na avaliação do reitor, atingiria os mesmos patamares de vencimento pagos pelo Ielusc. Desta maneira, além dos cursos, os professores também seriam remanejados para a universidade.


Marcus Vinícius Carvalheiro
Estudante do 4º semestre de Jornalismo e integrante do Diretório Acadêmico Cruz e Sousa (Dacs)

segunda-feira, agosto 31, 2009

Ele mal chegou
E logo se vai
Vai embora ser grande
Mostrar a todos quão grande sempre foi
Vai embora
Liderar grandes massas
Pilotar grandes máquinas
Namorar grandes mulheres
Nosso laço é delicado e muito forte
E nunca mais vai se romper
Por que pra onde quer que nossas vidas nos levem
Um dia já habitamos os sentimentos um do outro
E isso ninguém nunca vai poder mudar

sexta-feira, agosto 28, 2009

Momento de rabugisse da autora

Será que se eu simplesmente levantasse e fosse para a praia eu morreria de fome? Será que mandariam a polícia atrás de mim? Bom, eu sou uma pessoa honesta, pago meus impostos e só às vezes me envolvo em agitações. Mesmo assim a polícia costuma me achar sentada nas praças por aí. E eu nem sou do tipo sem classe que fica bebendo vinho barato. Sou do tipo que uso uma boininha verde e senta com muita delicadeza no balanço. Não se pode mais ter uma noite poética nesta cidade?

E se eu simplesmente me negasse a fazer um lead outra vez? Será que agarrariam meus braços e obrigariam meus dedos a digitar novamente? Acho que o difícil seria intervirem no meu cérebro, já que, mesmo que não pareça, é preciso ter um para escrever qualquer coisa que seja. Mas provavelmente eu morreria de fome. Hoje, depois do almoço, pensava enquanto andava solitária na rua: não é que eu goste muito do que faço, mas é que essa é a única coisa que eu queria fazer. Além, é claro, de inventar um novo estilo literário e ganhar o Nobel de literatura – mas isso é para daqui há muito tempo, quando a minha maturidade me fizer superar a preguiça de continuar projetos após os primeiros obstáculos.

E se eu fosse visitar os meus avós? Não, não. Minha avó me diria: garota, você não vem mais aqui. Prefiro continuar não indo a ouvir. E o final do meu curso? Será que eles não percebem que eu não vou mais aprender nada de novo naquele lugar? Daqui pra frente é inevitável que eu apenas enrole. Devia haver uma forma de avaliação assim: cansou? Então toma o teu diploma e vai se virar.

Por que as pessoas gostam de ler pornografias no banheiro? Na casa onde moro há um livro do Dalton Trevisan ao lado do vaso sanitário que faz muito sucesso. Eu já sabia, mas hoje sistematizei na minha cabeça o motivo pelo qual minhas histórias nunca são totalmente fictícias. Não sei colocar nomes nas minhas personagens. Nunca ficam reais o suficiente. Mas eu sei inventar histórias para personagens verdadeiras – ah, não me venham com hipocrisias. Todo mundo já inventou histórias num momento de desespero, em uma aula de redação jornalística. Não? Desculpe, eu sim. E foram as melhores coisas quase reais que eu já produzi.

Queria ter uma vida meio Sex and the City, mas não gosto da Vogue, não consigo me apaixonar tanto por sapatos e tenho pouquíssimas amigas meninas. As mulheres são, na maioria das vezes, chatas, frescas e não morrem nunca. Se morressem, ao menos eu escreveria algo bem bonito sobre elas.

A morte de Geraldo Mayrink*

Não sei por que, mas achei esse texto realmente bonito. Sou nova neste mundo de tentar saber tudo sobre o jornalismo e nunca tinha ouvido falar deste cara. Também não acredito que exista qualquer tipo de vida após a morte e por isso me recuso a dizer coisas do tipo "ele vai gostar de onde estiver", mas acho que a vida das pessoas deve ser encarada com muito respeito. Todas as vidas merecem ser contadas com carinho num texto bonito, mas algumas soam mais poéticas.


"A caminho de casa fico sabendo, pelo Twitter, da morte do Geraldo Mayrink, nesta quinta-feira.

Mayrink foi um dos grandes textos da imprensa brasileira. Quando entrei na Veja, foquíssimo, em setembro de 1970, a revista já tinha se embrenhado em um texto rococó terrível, com uma adjetivação pesada praticada por quase todos os redatores e editores.

Havia quatro textos que escapavam do estilão: do Geraldo, do Tão Gomes Pinto, do Renato Pompeu e do Elio Gaspari.

Geraldo era o mais admirado. Crítico de cinema, conseguia produzir análises saborosíssimas, recheadas de ironia, no espaço exíguo de uma revista semanal. Suas imagens, como por exemplo do ator “expressivo como um helicóptero”, e outras do gênero, eram motivo de diversão e de admiração geral.

E ele sempre com aquele jeito pacatão, nenhum deslumbramento, sabendo rir de si próprio, quando dizíamos que ele era clone de Dolores Del Rio, atriz de faroeste meio queixuda, que nem ele.

Lembro-me nitidamente de uma tarde na Veja, uma roda se formando em torno do Mayrink. Cada frase dele era celebrada com risadas superiores de colegas que lançavam olhares cúmplices como que dizendo, essa ironia, eu captei.

Eu estava recém-chegado de Minas, o Geraldão Hasse - outro belíssimo texto mas, naqueles tempos, apenas um pouco menos foca que eu - chegado de Porto Alegre. Veja era um deslumbramento só. Sob o comando do Mino, a revista explodira. Ser da Veja, na época, representava o mesmo que, anos depois, representaria ser da Globo - lembrando o Bozó, personagem do Chico Anísio.

Enquanto os colegas riam das ironias do Mayrink, o Hasse e eu trocávamos ideias. Não tínhamos identificado nenhuma ironia em determinada frase, para que provocasse tantas leituras e risadas dos colegas. Esperamos a roda se desfazer e fomos passar a limpo nossa suspeita.

- Mayrink, o que você quis dizer com aquela frase, que todo mundo riu.

E ele, com aquele ar de boi sonzo, mas só cara, porque espirrava ironia por todos os poros:

- Uai, não quis dizer nada. Também não sei porque eles riram.

Quando se tornou editor de Artes e Espetáculos, quase me transformou em crítico de Artes da revista. Em São Paulo houve a exposição de um futurista italiano e, repórter alocado na editoria de Artes e Espetáculos - mas só para matérias de música - fui incumbido de cobrir a mostra.

Fui para o Dedoc (o Departamento de Documentação da Abril), passei uma tarde lendo livros de artes e assimilando o linguajar e os tics dos críticos. Voltei com um texto em que reproduzia o padrão dos críticos.

Mino gostou tanto que chamou o Geraldo na sua sala e disse que tinham finalmente descoberto quem poderia preencher o cargo de crítico de Artes. Mayrink veio falar comigo com um ar de suprema gozação. Ele tinha captado meu estratagema. Passamos uma hora discutindo como escapar daquela enrascada. Acabamos concluindo que a única maneira seria admitir, ao Mino, que eu não entendia nadica de nada de artes plásticas.

Mayrink não era apenas o grande texto da Veja. Era também o grande caráter. Na greve de 1978, três editores foram à assembléia, no Sindicato, com falsa pose de vítimas. Diziam que editor tinha cargo de confiança. Se a redação quisesse, eles também fariam greve. Mas apenas eles pagariam o pato.

Foi algo tão sem vergonha que provocou um grito do Juca Kfoury, chamando a um deles de “canalha”, se me recordo bem. Solidário com a turma, embora sem nenhuma ligação com a política, Mayrink foi na frente e explicou:

- Pessoal, a capa desta semana é minha. Guardei na gaveta e tranquei. Se sair a greve, não entrego.

Essa lealdade para com o grupo, mesmo detestando política, marcou toda sua vida e da Maria do Carmo, sua mulher, grande figura.

Depois da saída de Mino, a revista entrou em uma fase barra-pesada. Julgava-se que havia uma dissidência interna, depois que a redação redigiu um abaixo assinado contra a manipulação de uma pesquisa feita em Brasília por Dalembert Jaccoud - outro grande jornalista, doce, firme e leal.

Esses períodos de intensa pressão são excelentes para revelar o caráter de cada um. Há os desleais, os assustados, os omissos, os radicais e os leais. Mayrink pertencia ao último grupo. Jamais radicalizou, jamais fraquejou, jamais cometeu uma deslealdade que fosse.

Passou seu período da Veja, entrou em outras experiências jornalísticas.

Depois, perdemos contato. A última vez que o vi foi dez anos atrás, em um jantar do pessoal da Veja dos anos 70.

Dia desses, encontrei o Humberto Werneck na padaria da rua Sergipe. Ficamos de combinar um encontro dos velhos amigos. Esse dia a dia maluco de São Paulo impediu saborear a última conversa com o Mayrink."


*Luis Nassif

quarta-feira, agosto 26, 2009

"Mandei um recado
Pro meu namorado
Nos classificados
De um grande jornal
Pedindo pra ele
Que um dia apareça
Antes que eu me esqueça
E melhore
O astral
Meu namorado é um sujeito ocupado
Não manda notícias
Nem dá um sinal..."

(Recado - Joanna)

quinta-feira, agosto 20, 2009

óculos

Colírio uma, duas, três, quatro vezes. Droga de pupilas se recusam a dilatar. Que bom, pensei, parece que são minhas, eu também tenho certa resistência à mudanças. Depois vieram os médicos, dois. Luzes vão, luzes vêm . Olhe para cá, agora para lá, para baixo, para a esquerda, seque as lágrimas, coloque o queixo aqui, acompanhe o meu dedo, fixe na minha orelha.
Droga! Não percebem que isso me deixa com vontade de chorar, de verdade, com sentimentos?
Você está um pouco mais cega, a sua retina é fina e pode descolar. Ah, é? Simples assim? E se cair, eu simplesmente ajunto? Atravesse a rua e faça mais exames. Puta merda, que dia claro! De onde saiu toda essa luz? Chega a doer. Um pouco de sala de espera com os olhos fechados. Não dá pra ler, dá vontade de vomitar. Mais uns exames, luzes, olhe para cá, olhe para lá, sua retina não vai cair. Ela tem manchas claras. Normal, como variações de tonalidades da pele.
Fui embora com aquela sensação de pena de mim mesma. Isso nunca mais tinha me incomodado. Deu vontade de quebrar os óculos, como quando eu era pequena, como se assim, num passe de mágica, eu pudesse enxergar o que nunca enxerguei. Por que as coisas são diferentes de como eu as vejo? Por que o mundo não podia ser simplesmente assim?

terça-feira, agosto 18, 2009

Um dia um amigo me pediu
Fran, escreve uns textinhos no teu blog
Por que eu não gosto de poesias
Tudo bem
O que eu escrevo não são poesias
São textinhos
Mal desenvolvidos por pura preguiça
Nossos pensamentos iam e vinham tão livremente
Que parecia mesmo que a gente estava pensando em voz alta
Durou até os primeiros raios de luz aparecerem
E você foi a voz da minha consciência
E me deu uns conselhos sobre o que eu deveria fazer com você

quinta-feira, agosto 06, 2009

Um dia, quando eu ainda era bem pequena, ele me disse para nunca usar drogas.
Ele não entendeu quando eu não quis voltar pra casa, nem por que eu gastava mais comendo em padarias do que comprando pão.
Sabe? É que eu acabei me viciando em estar sozinha, escrevendo em silêncio em casa à noite e, pela manhã, tomar café em confeitarias ao som de muitas colherinhas mexendo o açúcar.

terça-feira, agosto 04, 2009

"A dúvida é o preço da pureza
e é inútil ter certeza."
A pequeninha cresceu e agora às vezes eu a encontro caminhando pensativa pelas ruas centrais.
Sinto-me um pouco velha com minhas saias longas e minhas meias calças que embolam na perna.

segunda-feira, agosto 03, 2009

Homeopatia

Voltei naquele consultório, pedacinho de passado que me faz lembrar o terceiro ano do ensino médio e o tempo em que eu não bebia muito, não falava palavrões, tinha o cabelo pela cintura e atendia aquele telefone da sala de espera. Volto lá a cada três meses para conversar com a médica que foi – e ainda é – como uma mãe pra mim. Mãe mesmo, com os defeitos e carinhos que toda mãe tem.

Nos 20 minutos que sempre duram mais do quem uma hora a atualizo sobre dores, coceiras, namoros, dúvidas, problemas de família. Uma amiga disse que isso parece com prostituição. Eu acho que não por que nunca envolveu sexo.

Ela normalmente toca no assunto Deus e eu gosto de ouvi-la sem falar. Eu a escuto com a seriedade com que leio um bom jornal, sempre com um certo senso crítico. Ela não sabe realmente o que eu penso sobre as coisas, mas é uma das pessoas que mais me conhece. Na sua testa está escrito “experiência” e, no fundo, acho que ela sabe todas as coisas que eu não falo. Ela sempre tem uma opinião sobre os meus namorados. Basta descrever duas ou três características e já vai logo dizendo: é este, não é este... Até agora ela só disse que não era este, e teve razão todas as vezes.

Ela pega no meu pé por eu não almoçar e coisas assim, mas no meio disso sempre há uma filosofia inesperada que vale à pena escrever. Outro dia falei sobre a solidão. Sobre ter família, amigos e preferir viver sempre exilada. Então ela me disse que todos éramos sós e não havia nada que pudesse ser feito a respeito. Disse que na hora em que caminhamos na rua ou que levantamos de uma festa para ir para casa, nesses momentos, descendo as escadas pensando no horário em que precisamos acordar no dia seguinte, nesses momentos estamos sós. Não há solução para o fato de apenas nós mesmos ouvirmos nossos pensamentos.

Já faz quatro meses e eu não tive mais nenhuma crise de solidão.

sábado, julho 18, 2009

O que você está fazendo, criança?
Você tem ideia de onde está entrando?
Eu costumava guardar esse lugar a sete chaves
Veja lá! Não vá bagunçar aí dentro
Impossível. Você é tão criança...
Pare de forçar a porta, por favor
Eu gosto de tudo no lugar

sábado, julho 11, 2009

Boteco

"Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de cento e cinqüenta anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de cento e cinqüenta anos, mas tudo bem).

No bar ruim que ando freqüentando ultimamente o proletariado atende por Betão - é o garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas, acreditando resolver aí quinhentos anos de história.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar "amigos" do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura.- Ô Betão, traz mais uma pra a gente - eu digo,com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte dessa coisa linda que é o Brasil.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gâteau e não tem frango à passarinho ou carne-de-sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais da nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gâteau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, gostamos do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne-de-sol, uma lágrima imediatamente desponta em nossos olhos, meio de canto, meio escondida. Quando um de nós, meio intelectual, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectual, meio de esquerda, freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim.

O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e, um belo dia, a gente chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e, principalmente, universitárias mais ou menos gostosas. Aí a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos
bêbados que jogavam dominó.

Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevette e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.

Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantêm o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam cinqüenta por cento o preço de tudo. (Eles sacam que nós meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato). Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se dão mal, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão Brasil, tão raiz.

Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda em nosso país. A cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que a gente gosta, os pobres estão todos de chinelos Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gâteau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda que, como eu, por questões ideológicas, preferem frango à passarinho e carne-de-sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca, mas é como se diz lá no Nordeste, e nós, meio
intelectuais, meio de esquerda, achamos que o Nordeste é muito mais autêntico que o Sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é bem mais assim Câmara Cascudo, saca?

Ô Betão, vê uma cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?"

Texto de João Werner, integrante do volume As Cem Melhores Crônicas Brasileiras, organizado por Joaquim Ferreira dos Santos.

sexta-feira, julho 03, 2009

Para uma menina de cabelos e coração negros

Antes de te conhecer eu não estava tão certa de que outro mundo era possível e nem de que ele era assim tão necessário. Você definitivamente não se encaixa nesse mundo e isso me deixa muito feliz por que te observar me faz pensar que a gente luta por um mundo onde pessoas maravilhosas como você poderiam viver a plenitude do seu estado natural: a felicidade.
Será que você pode me explicar como um coração tão grandão cabe aí dentro? Sabe?... Deve ser natural um coração tão grande se sentir meio apertado às vezes. Mas não chore, pequenina. Um dia as pessoas morarão num lugar onde todos os homens, seus corações e mentes serão assustadoramente grandes.

O maior amor do mundo

Aquele amor que um dia eu pude presenciar, sem dúvida, era o maior amor do mundo. Ele era tão grande, tão grande, que nenhum de nós conseguia enxergá-lo inteiro, nem sabia muito bem o que fazer com ele. Um amor daquele tamanho não poderia caber num mundo tão errado, e só o que a gente podia fazer era tentar mudar o mundo para que um dia alguém pudesse viver um amor como aquele. As pessoas que amavam aquele tamanho todo de amor eram tão grandes, tão grandes, que enquanto elas viveram ninguém conseguiu compreendê-las.

quinta-feira, junho 18, 2009

Projeto escolar vai aquecer o coração de famílias carentes nesse inverno

Quando o professor anunciou o passeio, a reação da turma não correspondeu às suas expectativas. Os alunos continuaram com suas caras de 7h30, sem muito entusiasmo. Então ele resolveu radicalizar:

- Estou falando que vamos visitar o Parque Joinville. Alguém aqui conhece o Parque Joinville?

Nenhum dos cerca de 20 adolescentes reagiu e isso parecia um “não, nenhum de nós”.

- É o pior lugar que vocês já viram. O Parque Joinville tem um cheiro de Parque Joinville, só dele, que vocês só poderão sentir lá.

Seguiu contando que era um odor de podridão. Que lá galinhas ciscavam magras pelas ruelas enlameadas e que cavalos caminhavam sem cabeça, com feridas expostas.
Então ele começou a conseguir a reação que esperava. Uma menina loira de nariz empinado se mexeu na cadeira. Assim como os outros 19, ela vestia moletom e calça azul. Era o uniforme da escola. A calça das meninas parecia de ginástica. A maioria eram magras e bonitinhas. Fiquei com pena da gordinha que, obrigada a entrar naquele modelo de calça, deixava suas celulites precoces à mostra. A calça dos meninos era larga de um tecido que parecia gelado, mas que eles afirmaram que não era.
Era início de junho e o dia amanhecia frio, mas o ar-condicionado estava ligado. A sala tinha um formato retangular e tapumes de madeira que deixavam a galera do fundão acima dos demais (por isso os malvados se refugiavam nas extremidades laterais) e o professor num nível abaixo de todos. As cortinas eram do mesmo tom azul escuro dos uniformes e o quadro era verde. A sala tinha ainda duas caixas de som, uma do lado direito e uma do esquerdo, e as cadeiras eram azuis e estofadas.

- Eu não quero ir, professor. – Era a menina do nariz (Por Deus! Ele era realmente fininho e empinado).

- Não tem escolha. Todos terão que ir. Faz parte do projeto das caixinhas de leite.

- Vou falar com a minha mãe. Você não pode nos obrigar a ir num lugar assim. Deve ser perigoso.

- Pessoas vivem lá todos os dias e só às vezes morrem. Não tem tanto perigo.

Era a discussão que faltava para a turma acordar. A visita ao Parque Joinville, localidade pertencente ao bairro Aventureiro, era a continuação de um projeto interdisciplinar da escola. Durante todo o primeiro semestre, os alunos das turmas matutinas do ensino médio arrecadaram caixas de leite longa vida, as abriram, limparam e as colaram umas nas outras. Agora eles tinham vários exemplares de uma espécie de camada protetora que deixaria a casa de alguns pobres um pouco mais quente no verão e mais fria no inverno. Ao menos foi isso que um dos alunos me explicou, embora eu acredite que a intenção da professora de física, proponente do projeto, é que o efeito fosse o contrário.
A disciplina de história que ministrava o professor terrorista estava responsável pela pesquisa de campo e elaboração de um perfil sócio-econômico das famílias que seriam beneficiadas. Nas aulas de história da arte, os estudantes estavam confeccionando uma maquete de uma casa modelo, em que a técnica de refração de calor era utilizada. Esta maquete seria exposta em duas semanas no Shopping Mueller e já estavam sendo organizadas escalas de alunos que ficariam lá explicando como o sistema funcionava.
O professor pediu à turma, principalmente às meninas, que não se “emperiquitassem” tanto. E explicou que ninguém deveria sumir de suas vistas. Aquela discussão tola me deixou com tamanhas náuseas que agora quem não queria ir mais era eu. Afinal, eles iam visitar pessoas ou um zoológico?
Na semana seguinte eu estava lá no mesmo horário e todos se preparavam para a grande aventura. Era uma mistura de sorrisinhos de puberdade, que nada tinham a ver com o contexto, excitação pelo passeio e caras de 7h30. No percurso dentro do ônibus locado, musiquetas adolescentes. O garoto loiro quieto, baixinho, musculoso, com tênis de língua larga e corrente de prata no pescoço estava visivelmente tentando cantar uma menina de cabelos curtos e lápis delineador, no penúltimo banco do lado esquerdo.
O ônibus saiu da área central da cidade e percorreu ruas de bairros, com lojas e asfalto populares. Deu uma virada brusca à direita e começou a andar em ruas de chão. Quando o motorista estacionou e todos desceram, ninguém avistou cavalos sem cabeça.
Outra turma fora junto com a que eu acompanhava e ali havia um garoto suíço que fazia intercâmbio. Alguns pareciam preocupados com o que ele estava pensando de tudo aquilo e confesso que por um momento até eu me preocupei.

- Isso aqui – falou o professor para o garoto suíço – isso aqui sim é que é Brasil.

Então os adolescentes saíram batendo nas casas e fazendo perguntas aos moradores. A rua onde paramos era paralela ao Rio do Ferro. Acompanhei o professor, um morador e mais três alunos aos fundos de uma das casas. Atravessamos uma ponte estreita de madeiras podres e pudemos ver de perto o rio. Ele era muito sujo, chegava a ser cinzento e muitos pedaços de móveis e papelões boiavam ali. As casas do lado esquerdo da rua, que estavam na margem do rio, eram ocupações, mas duvido que algum aluno ali tenha atentado para isso.
Pelo que constatei a maior parte dos moradores das ocupações do Parque Joinville catavam papelão para sobreviver. Um dos casebres abrigava duas famílias, o que significava nove pessoas num espaço de uns 7m². Era triste, mas achei que nossa presença ali entristecia mais as vidas deles. O cenário me lembrava um filme que havia assistido naqueles dias sobre a Idade Média.
Os animaizinhos uniformizados tiravam fotos em suas câmeras digitais, apontavam e riam. O professor parecia satisfeito.
Depois voltamos todos ao ônibus e as grades da porta e das janelas desceram. Então o motorista guiou a manada de filhos do papai em segurança até a escola.