segunda-feira, novembro 30, 2009

O sereno silêncio

Depois de passarmos uma noite ao embalo de um legítimo tango argentino, pegamos a estrada ao som do bom e velho rock and roll. Entre nós imperava um sereno silêncio. Você dirigia em alta velocidade e eu observava as luzes alaranjadas da rodovia. Na cabeça aquele poema do velho Quintana: “Amizade. Quando o silêncio a dois não se torna incômodo”. Outra vez resolvemos não resolver nada. Na manhã seguinte, te vendo dormir, pensei que não havia nenhum outro lugar onde eu gostaria de estar.

"...E eu acho que eu gosto mesmo de você
Bem do jeito que você é...

... Adoro essa sua cara de sono
E o timbre da sua voz
Que fica me dizendo coisas tão malucas...”

quarta-feira, novembro 25, 2009

O prisioneiro

Na metade da tarde há um horário em que quase diariamente vou ao Fórum de Joinville. Eu trabalho ali ao lado e, embora aquela rua seja importante, pois nela ficam os prédios dos três poderes na cidade, não há muito onde comer por lá. Então, como eu ia contando, costumo ir ao Fórum comprar alguma coisa para acabar com aquela dorzinha de cabeça que vai dando da fome.

Na quinta-feira passada eu fui lá fazer exatamente isso. Passei pela porta principal de entrada e fui direto ao caixa eletrônico sacar dinheiro para comer. Ao lado da máquina havia um aglomero de homens fardados, mas eu nem prestei atenção, afinal isso é normal por lá. Foi só por causa da fila do caixa, fixei os olhos naquele amontoado de pessoas sem saber exatamente para o que estava olhando e, de repente, comecei a sintonizar o que acontecia. Circulando um homem tinha uns cinco policiais e a advogada dele. Agarrada com um braço só ao cara no meio da roda tinha uma mulher cuja saia e cabelos compridos denunciavam ser evangélica. No colo dela, uma menininha de uns dois anos de idade que também o tocava.

Não sei há quanto tempo estavam assim. Os policiais pareciam comovidos e ninguém queria o tirar à força daquele emaranhado de braços femininos. Aí um deles terminou de conversar com a advogada e fez um sinal com a cabeça. O prisioneiro, que nem algemado estava, falou à mulher que precisava ir e ensaiou um passo. Ela o segurou pela cintura, ele falou alguma coisa que não pude ouvir, deu um beijo apaixonado em sua boca e um beijo carinhoso na cabeça da garotinha. Depois saiu pela porta com os policiais e a mulher ficou parada, olhando e chorando com a criança no colo. Ela parecia... precisar dele para viver.

Saí do Fórum sem ter feito o que fui lá fazer. Perdi completamente a fome e a vontade de qualquer coisa. Comentei com uma amiga depois, disse a ela que eu não sabia o que ele tinha feito, mas que aquilo me parecia muito injusto. Acho que de todos que eu contei essa história ela foi a que mais entendeu meu sentimento. E me disse assim: a culpa nessa sociedade é sempre uma coisa muito relativa.

sexta-feira, novembro 13, 2009

Caquinhos de cristal

Depois que minha lua voltou a sua órbita, recuperei um sentimento de tranqüilidade. Só que tem sido uma paz estranha, pesada. Há alguma coisa fora de lugar (acho que aqui dentro). Sintonizei novamente aquela freqüência, mas parece que o mundo todo está em descompasso – e até nossa melodia, que era tão bonita, agora parece desafinada. Fecho os olhos e vejo o silêncio materializado. Sinto-me a catar caquinhos de um cristal quebrado (talvez por isso o cansaço). Às vezes ando pelo centro da cidade à noite pensando nessas coisas. Não entendo aonde vão meus passos. Os planos que faço são misteriosos até mesmo para mim.

Meu mundo ficaria completo

Nando Reis

"Não é porque eu sujei a roupa bem agora que eu já estava saindo

Nem mesmo por que eu peguei o maior trânsito e acabei perdendo o cinema
Não é por que não acho o papel onde anotei o telefone que estou precisando
Nem mesmo o dedo que eu cortei abrindo a lata e ainda continua sangrando
Não é por que fui mal na prova de geometria e periga d'eu repetir de ano
Nem mesmo o meu carro que parou de madrugada só por falta de gasolina
Não é por que tá muito frio, não é por que tá muito calor
O problema é que eu te amo
Não tenho dúvidas que com você daria certo
Juntos faríamos tantos planos
Com você o meu mundo ficaria completo
Eu vejo nossos filhos brincando
E depois cresceriam, e nos dariam os netos
A fome que devora alguns milhões de brasileiros
Perto disso já nem tem importância
A morte que nos toma a mãe insubstituível de repente
Dela eu já nem me lembro
A derrota de 50 e a campanha de 70 perdem totalmente o seu sentido,
As datas, fatos e aniversários passam
Sem deixar o menor vestígio
Injúrias e promessas e mentiras e ofensas caem fora
Pelo outro ouvido
Roubaram a carteira com meus documentos
Aborrecimentos que eu já nem ligo
Não é por que eu quis e eu não fiz
Não é por que não fui
E eu não vou
O problema é que eu te amo
Não tenho dúvidas que eu queria estar mais perto
Juntos viveríamos por mil anos
Por que o nosso mundo estaria completo
Eu vejo nossos filhos brincando
Com seus filhos que depois nos trariam bisnetos
Não é por que eu sei que ela não virá que eu não veja a porta já se abrindo
E que eu não queira tê-la, mesmo que não tenha a mínima lógica esse raciocínio
Não é que eu esteja procurando no infinito a sorte
Para andar comigo
Se a fé remove até montanhas, o desejo é o que torna o irreal possível
Não é por isso que eu não possa estar feliz, sorrindo e cantando
Não é por isso que ela não possa estar feliz, sorrindo e cantando
Não vou dizer que eu não ligo, eu digo o que eu sinto e o que eu sou
O problema é que eu te amo
Não tenha dúvidas, pois isso não é mais secreto
Juntos morreríamos, pois nos amamos
E de nós o mundo ficaria deserto
Eu vejo nossos filhos lembrando
Com os seus filhos que já teriam seus netos"


terça-feira, novembro 10, 2009


Naquela manhã acordou muito descansada, sentindo-se leve como há tempos não acontecia. Colocou um antigo CD do Nando Reis para tocar e teve aquela sensação de prazer que algumas músicas especiais lhe davam em dias bons. Depois, segurando uma caneca de café em frente à janela, ficou se perguntando por que não ouvia aquele disco há tanto tempo. Como uma corrente de água quente que nos encontra mergulhando num mar gelado, recordações e sentimentos invadiram seus pensamentos e os remeteram àquele antigo amor. Lembrou do que essas músicas significaram e ficou surpresa de conseguir ouvi-las novamente sem sofrer. Gostou muito daquele pequenino, como nunca mais gostou de ninguém. Hoje, não podia afirmar se aquilo era amor ou deslumbramento. Não havia nada em comum entre os dois, além do sentimento de só terem um ao outro, contra todos em volta e tudo que acreditavam. Não sentia mais do que carinho pelas lembranças que trazia daqueles primeiros dias de enfrentamento de um mundo cinza e de uma casa colorida. Foram sentimentos assassinados, muito bem enterrados e depois prometidos a outras pessoas. Mas seriam sempre boas lembranças para se ter de manhã, tomando café e ouvindo Nando Reis.

"Amor eu sinto a sua falta
e a falta é a morte da esperança
Como o dia que roubaram o seu carro
deixou uma lembrança
que a vida é mesmo coisa muito frágil
uma bobagem uma irrelevância
diante da eternidade do amor de quem se ama

Por onde andei enquanto você me procurava?
E o que eu te dei?
Foi muito pouco ou quase nada
E o que deixei?
Algumas roupas penduradas
Será que eu sei que você é mesmo tudo aquilo que me falta?"

quarta-feira, novembro 04, 2009

Aqueles dois

Ligaram em uma terça-feira no início da noite. Fizeram um pedido inconveniente, não seria a primeira vez. Lembra daquele meio primo? Mais ou menos. Era apenas uma criança quando o conheceu. Morava consideravelmente longe, não eram assim tão parentes, há pelo menos oito anos que não o via.
Colocaram-o na linha. Agora tinha que ser simpática. Não foi difícil para ela, era assim naturalmente. Também não pareceu difícil para ele. Tinha um sotaque engraçado, do cerrado. Ele não sabia se ela era ela ou a irmã, que também conhecera. Ela não sabia se ele era ele ou o irmão.
Achou bizarro, mas depois esqueceu. Terminou a semana como todas as outras. Voltaram a insistir. O garoto estava sozinho entre os velhos, queriam que o levasse para sair. Ela precisava ir a uma festa promovida pelo trabalho, tinha ingressos, ofereceu, avisou que seria ruim, ele aceitou.
A sexta-feira chegou junto com um desencontro. Achou que ele não viria. Tudo bem, não estava com muito saco de cuidar de crianças mesmo. Foi a um bar antes da festa, onde costumava encontrar com amigos. Logo que chegou o telefone tocou. Houve um engano, ele estava a caminho. "
Que saco", comentou com alguém. 
Quando o viu levou um susto. Que olhos azuis. E que sotaque engraçado. Caminharam até o local da festa bem devagar. Demonstravam um interesse espontâneo um pelo outro. O que tem feito? No que se formou? Onde trabalha? Onde mora? Algumas pessoas a cumprimentaram no caminho e ele quis entender por que ela era tão popular. Movimento estudantil, essas coisas. Ah, você tem cara, eu nunca me meti nisso. As histórias dele eram de viagens. Ele não parecia fazer mais nada da vida além de viajar.
Ela achou o lugar da festa com um aspecto horrível, dos piores já presenciados. Nos primeiros 15 minutos lamentou tê-lo trazido ali. Então ele a convidou para dançar. Não, nem pensar. Isso aí eu não danço não. Ah, não vai me fazer essa desfeita.
Ela cedeu. Dançaram. Ele a ensinou, não com pouca dificuldade ela pegou o jeito. Resolveu entregar-se ao ridículo. Dançou muitas músicas. Paravam uma, dançavam cinco. Os colegas de trabalho observavam assustados. Quem é ele e o que ela faz dançando lá no meio?
Quando o último conhecido foi embora ele encostou o rosto em seu pescoço. Um beijo clichê, como tudo naquela história. Terminaram a música e sentaram para descansar. Acabara o assunto. Vamos embora? Não havia mais nenhum sentido em ficar ali.
Caminharam mais um pouco conversando. Fazia frio e os saltinhos dela estalavam nas calçadas do centro deserto da cidade. Antes que ela pudesse abrir a porta do prédio ele a parou, beijou-a, não queria deixá-la subir. Tudo bem. Sabia que iriam para a cama desde o primeiro contato por telefone, mas que subissem. Ele não quis. Queria tê-la ali mesmo. Resistiu. Cedeu. Aqueles olhos azuis.
Mais tarde, no quarto dela, ele dormiu no chão e ela na cama. Nenhum dos dois esperava algo mais do outro. Conversaram mais um pouco antes de dormir. De manhã acordaram cedo. Ela pulou para a cama dele. Rolaram um pouco, brincaram feito crianças. Ele questionava suas ideologias e ela o seu modo de vida descomprometido. Vieram buscá-lo e ela teve um sábado normal. À noite uma formatura. Domingo um almoço de família. Chegou atrasada, cumprimentou tios, primos e avós. Sentou ao lado do pai e, só depois, altiva, ousou olhá-lo. Ele correspondeu o olhar discreto. Tinham um segredo. Um delicioso segredo, que desafiava tudo representado naquela mesa. Família, moral, bons costumes e coisa e tal. Tudo muito comum, incluindo suas ousadias.
Passaram o dia juntos, sem beijos, sem sexo, como primos comportados. À noite se despediram, sem tocar no assunto. No dia seguinte ele se foi. E deixou nela uma vontade de ir junto. Não por ele, apenas por ir. Aí ela fez uma poesia assim:

"Chegou do nada com aqueles olhos do além
Pegou-me pela cintura
e nem perguntou se podia
Não perguntou se eu queria
e ainda contestou meus ideais
Depois foi embora
e deixou em mim
vontade de ir também"

terça-feira, novembro 03, 2009

Por que eu sou altamente influenciável
pelas coisas que leio,
que ouço
e que sinto:

Let me take you down
cause I’m going to strawberry fields
nothing is real, and nothing to get hung about
strawberry fields forever
strawberry fields forever
strawberry fields forever

Lennon e McCartney ~ Strawberry fields forever