Gosto dos desajustados. Sou dessas
que a família olha com desconfiança: “parece que nunca vai se acertar na vida”.
Tenho simpatia pelos que às vezes andam deprimidos se sentindo diferentes de
tudo que está ao redor. Acho que essas são as pessoas mais inteligentes, porque,
sim, está mesmo tudo errado! Mas essa gente não vem embalada em bons empregos,
carros e cabelos. Alguns tomam remédios, têm histórias com drogas, viveram
infâncias e adolescências ruins. Sim, essas pessoas são as que sentiam desde
que nasceram, mesmo sem ainda conseguir explicar, que a sociedade é doente.
Sempre tenho vontade de chorar quando ouço Geni e o Zepelim, pois acho que ela
estava certa em preferir amar com os bichos. Gosto ainda mais daqueles que,
tendo entendido o motivo do desajustamento, passam a vida tentando colocar o mundo
de cabeça pra cima. Acho bonito da parte deles. Nas horas vagas esse tipo de
gente é capaz de descer uma ladeira dentro de um carrinho de supermercado,
rindo como loucos.
domingo, fevereiro 16, 2014
segunda-feira, dezembro 23, 2013
Sobre o volume das perguntas
Há tantas perguntas por dentro
Queimando
O mundo está torto?
Eu que estou de cabeça pra baixo?
Tentei perguntar a um passante
Mas falei tão baixinho
Que ele nem me ouviu
Gritar me cansa
e nem refresca
e nem refresca
terça-feira, novembro 26, 2013
Mais alto do que se pode ver
Primeiro o arrancaram de sua pátria para viver como bicho do outro lado do mar.
Sugaram até sua última gota de sangue.
Depois expulsaram seus filhos para o alto.
Tão em cima que doía olhar.
E era preciso descer todo dia pra ganhar o pão.
E muitas vezes não tinha trabalho pra quem vivia lá.
E às vezes era preciso roubar.
E por vezes era melhor se drogar.
Mas então todo o chão já não bastava e os ricos queriam subir.
(Dizia-se que queriam a vista, mas desconfiei que estivessem de olho era naquele morro de amor).
Agora mandam seus netos descerem.
E não basta tirar-lhes a vida, a casa, o morro...
Tentam apagar sua história.
Faz todo sentido.
Criminosos apagam vestígios.
terça-feira, agosto 20, 2013
Zênite
Hoje aprendi uma nova palavra
meio estranha
e meio linda
zênite
o ponto mais alto do céu
– e ele me provou com um desenho científico
Descobri onde fica
o fecha parênteses
do quanto eu te gosto
(
segunda-feira, agosto 05, 2013
A velha torta comendo pipoca
Eu voltava para casa em um ônibus
– este transporte de gado, bucólico, cheio de bois cansados que seguem a matadores
– e na minha frente havia uma velha torta comendo pipoca. Alguma coisa tinha
torcido a cara dela. O tempo, o vento, uma doença, um marido machão. Com a boca
localizada no canto inferior esquerdo do rosto ela mastigava e mastigava e
mastigava; uma pipoca atrás da outra. Um dos seus olhos também era repuxado. Dava
pra ver um pouco da parte vermelha. De repente ela me surpreendeu vidrada em
sua imagem. Disfarcei muito mal enquanto pensava quem a amava, quantos filhos
havia posto no mundo, de quantos homens havia partido o coração, o que a
emocionava. Mais uma espiada. Ela tinha
um jeito caricato de velha carrancuda, mas estava disfarçada com roupas
normais. Usava uma blusa que me fez lembrar uma tia, talvez a mim no futuro. Desci.
A velha torta ainda mastigava pipoca.
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