Amar... mais que tudo, de todas as formas, sem precisar dizê-lo, mas dizê-lo, com sinceridade, também é amar.
Prender, impedir, aniquilar, apropriar-se do amor. Nada mais grave, nada mais destrutivo, nada mais incompreensível.
Amar a uma só pessoa, não gostar de quem ama quem você ama, está errado e é confuso.
Nada mais fácil que viver, nada mais correto que a verdade, nada mais importante que acreditar, nada mais justo do que brigar pelo que se acredita.
Nada mais enojante que perceber que andaram te fazendo acreditar que não se deve acreditar.
Nada mais normal do que chorar. Nem que sorrir. Aliás, nada mais natural do que sorrir.
Nada mais importante do que amar.
terça-feira, novembro 11, 2008
quarta-feira, outubro 29, 2008
Acordou cidadão, dormiu pedra
Acordou um dia e não lembrou de nada. Não sabia seu nome, idade, endereço, onde estava. No chão, deitado, olhou para um lado e viu pedras paver, virou para outro e viu mais pedras paver e uma placa de “Estamos em obras”. Levantou-se e a sua volta girava uma cidade de pessoas que passavam. Tanto acompanhou passos que tonteou e, para não cair, teve que se sentar sob as pedras de concreto. Pôs-se a pensar e, embora o céu escaldasse, teve uma idéia. Mesmo não sabendo, achou que nunca havia tido idéia tão boa. Não sabia o que já sabia, mas sentiu-se excitado com a idéia de apreender o mundo todo novamente. Foi então que tomou a decisão mais importante de que se lembrava – é certo que não se lembra de nada, mas isso não vêm ao caso. Pegaria um ônibus ali ao lado e descobriria tudo.
Contornou a enorme estrutura de onde entravam e saiam ônibus e recuou ao som de um apito. Difícil entender porque tamanha rispidez. E isso ainda não era o mais incompreensível. Para poder ir e vir nesta cidade, explicaram-lhe, era preciso ter R$ 2,05 no bolso. Desapontado, porém, não desanimado resolveu falar com a pessoa que cuidava do pedaço. Com olhar entre espantado e desconfiado o ambulante que vendia algodão doce, cocada, pipoca e amendoim por ali, apontou para um bonito prédio. “Lá, em cima de um morro, é a prefeitura”, informou-o. Chegando, ficou feliz por ver que mais pessoas haviam tido a mesma idéia. Mais de uma centena de cidadãos faziam filas e retiravam senhas, certamente para apresentar reclamações e sugestões de gestão da cidade. Retirou a senha e sentou-se numa das muitas cadeiras do salão. Mas, para seu novo espanto, percebeu que as pessoas cujas senhas eram chamadas dirigiam-se aos balcões e pagavam coisas. Curioso, questionou a senhora sentada ao lado. “A gente vêm aqui pagar impostos”, explicou ela.
Então era para isso que servia a prefeitura? Apenas para recolher impostos? Ao menos para o povo, sim! No setor de informações disseram que o prefeito estava, mas não era tão fácil subir para trocar dois dedinhos de prosa. Atender a população não é a prioridade do chefe do Executivo, “que tem coisas muito mais importantes a fazer”, informou a moça do balcão de informações. Atrás dela, na parede, havia um cartaz onde se lia “Cidade dos príncipes, das flores e das bicicletas”.
Cabisbaixo, mas consolado com a idéia de que em algum lugar por aqui havia príncipes, flores e pessoas felizes andando de bicicleta, foi descendo degraus rumo à rua. Havia um cheiro ruim por ali. Pensativo, seguiu a calçada e deparou-se com o Templo da Justiça Municipal. Pensou que a justiça devia ser bonita, porque de lá só saiam pessoas muito bonitas e bem arrumadas. Depois de um sem tempo de observações, retomou a caminhada. Nem bem deu dez passos, avistou um prédio branco e amarelo; no alto em letras grandes lia-se “Câmara Municipal de Vereadores”. Agora sim, pensou ele, encontrara a Ágora do Povo. Este é o lugar onde os eleitos pela população fazem leis e fiscalizam o que faz o prefeito, explicou-lhe um pequeno rapazinho na saleta dos “vereadores mirins”.
Tomou acento no plenário de onde disseram que podia assistir os trabalhos. Descobriu um espetáculo trágico-cômico da melhor qualidade. Os legisladores brigavam por nomes de ruas, discutiam sexo de anjos, aprovavam doação de dinheiro do povo às empresas privadas, davam tapinhas nas costas, conversavam alto e cortavam o microfone de um homem que tentava dizer que nada daquilo estava certo. Ele quis chamar as meninas que levavam garrafas de café de lá para cá pelos corredores para assistirem o show, mas elas disseram que tinham vergonha de entrar lá.
Ora bolas, vergonha!
Saindo do prédio respirou fundo o ar da noite, e o cheiro podre do grande esgoto em frente invadiu suas narinas e pulmões. Foi andando para o lugar onde tinha acordado. Pensou nas flores que não vira, bicicletas disputando espaço com pessoas em calçadas, indagou-se sobre o príncipe que não veio salvar pessoas que passavam a vida com medo e envergonhadas. Então deitou novamente no mar de concreto e virou outra vez uma pedra paver.
Contornou a enorme estrutura de onde entravam e saiam ônibus e recuou ao som de um apito. Difícil entender porque tamanha rispidez. E isso ainda não era o mais incompreensível. Para poder ir e vir nesta cidade, explicaram-lhe, era preciso ter R$ 2,05 no bolso. Desapontado, porém, não desanimado resolveu falar com a pessoa que cuidava do pedaço. Com olhar entre espantado e desconfiado o ambulante que vendia algodão doce, cocada, pipoca e amendoim por ali, apontou para um bonito prédio. “Lá, em cima de um morro, é a prefeitura”, informou-o. Chegando, ficou feliz por ver que mais pessoas haviam tido a mesma idéia. Mais de uma centena de cidadãos faziam filas e retiravam senhas, certamente para apresentar reclamações e sugestões de gestão da cidade. Retirou a senha e sentou-se numa das muitas cadeiras do salão. Mas, para seu novo espanto, percebeu que as pessoas cujas senhas eram chamadas dirigiam-se aos balcões e pagavam coisas. Curioso, questionou a senhora sentada ao lado. “A gente vêm aqui pagar impostos”, explicou ela.
Então era para isso que servia a prefeitura? Apenas para recolher impostos? Ao menos para o povo, sim! No setor de informações disseram que o prefeito estava, mas não era tão fácil subir para trocar dois dedinhos de prosa. Atender a população não é a prioridade do chefe do Executivo, “que tem coisas muito mais importantes a fazer”, informou a moça do balcão de informações. Atrás dela, na parede, havia um cartaz onde se lia “Cidade dos príncipes, das flores e das bicicletas”.
Cabisbaixo, mas consolado com a idéia de que em algum lugar por aqui havia príncipes, flores e pessoas felizes andando de bicicleta, foi descendo degraus rumo à rua. Havia um cheiro ruim por ali. Pensativo, seguiu a calçada e deparou-se com o Templo da Justiça Municipal. Pensou que a justiça devia ser bonita, porque de lá só saiam pessoas muito bonitas e bem arrumadas. Depois de um sem tempo de observações, retomou a caminhada. Nem bem deu dez passos, avistou um prédio branco e amarelo; no alto em letras grandes lia-se “Câmara Municipal de Vereadores”. Agora sim, pensou ele, encontrara a Ágora do Povo. Este é o lugar onde os eleitos pela população fazem leis e fiscalizam o que faz o prefeito, explicou-lhe um pequeno rapazinho na saleta dos “vereadores mirins”.
Tomou acento no plenário de onde disseram que podia assistir os trabalhos. Descobriu um espetáculo trágico-cômico da melhor qualidade. Os legisladores brigavam por nomes de ruas, discutiam sexo de anjos, aprovavam doação de dinheiro do povo às empresas privadas, davam tapinhas nas costas, conversavam alto e cortavam o microfone de um homem que tentava dizer que nada daquilo estava certo. Ele quis chamar as meninas que levavam garrafas de café de lá para cá pelos corredores para assistirem o show, mas elas disseram que tinham vergonha de entrar lá.
Ora bolas, vergonha!
Saindo do prédio respirou fundo o ar da noite, e o cheiro podre do grande esgoto em frente invadiu suas narinas e pulmões. Foi andando para o lugar onde tinha acordado. Pensou nas flores que não vira, bicicletas disputando espaço com pessoas em calçadas, indagou-se sobre o príncipe que não veio salvar pessoas que passavam a vida com medo e envergonhadas. Então deitou novamente no mar de concreto e virou outra vez uma pedra paver.
Sobre quando as crianças crescem
Não eram mais crianças. Um dia se encontraram num assalto. Ela a assaltante, ele a vítima. Não que a cidade em que moravam fosse muito grande a ponto de não poderem nunca, sendo dois jovens da mesma idade, ter se encontrado. Eles apenas moravam em planetas diferentes.
Para poder opinar sobre a infância em tempos, diz-se, de pós-modernidade, só no que pude pensar foi neste ato sublime de união entre duas classes sociais tão opostas: o assalto.
Não fossem todos os fatores imagináveis somados ao fato de ela não vestir-se tão bem como ele, estes dois formosos jovens poderiam ter se apaixonado. Havia neles uma coisa em comum: cada qual morava em um planeta.
Na educação dele influenciaram as revistas de educação, as orientadoras psicopedagógicas da escola onde estudou e os programas educativos da TV por assinatura. Na dela, a escola sem biblioteca, o tio revendedor de crack e a pouca atenção da mãe que cuidava de mais cinco filhos pequenos.
Viveram suas infâncias ao mesmo tempo, mas não era de infâncias como a dela que se falava nos comerciais de Nescau. Ele também era de certa forma excluído, na lista dos mais procurados não havia nenhum parente.
Então, ela sussurrou que ele passasse o relógio e todo o dinheiro que levava na carteira. Ele pôde sentir o seu mau cheiro e apenas o medo impediu-o de vomitar. Ela sentiu seu perfume e ele era tão belo quanto os meninos dos seriados TV.
Na escola que ela freqüentou quando criança, as aulas eram improdutivas e o que mais se aprendia era a física relacionada à velocidade e peso das bolinhas de papel. Na hora da merenda, feijão de terceira qualidade. Para ela, a comida era gostosa e, muitas vezes, a melhor parte de ir para a aula. À tarde, pipa nas ladeiras do morro onde morava uma amiga sua ou atirar pedra no esgoto a céu aberto, em frente a sua casa. Algumas vezes, ela nem dormia em casa e sua mãe parecia nem perceber.
Na escola dele, professores especializados ensinavam brincando e as bibliotecas eram projetadas para se mostrarem sedutoras aos olhos do futuro da humanidade. Ir para a aula só era chato porque o fazia perder algumas horas em que poderia estar na internet. As suas navegações na internet eram restringidas por seus pais, que o julgavam jovem demais para ter contato com todo tipo de imagens horrorosas que a web pode oferecer. Para ocupar o restante do dia, ele ainda fazia inglês e natação.
Quando ela colocou os pertences no bolso, falou-lhe ainda que se gritasse ganharia um corte na garganta. Então, abaixou o caco de vidro com que o ameaçava e saiu em disparada para o lado oposto de onde viera.
Ele ficou parado, soluçando em estado de choque. Estava apenas passeando inocentemente pela praia. Nunca antes, alguém no mundo sofrera tamanha injustiça.
Naquela tarde, o pai dele demitiu mais seis empregados com cinco filhos cada.
Para poder opinar sobre a infância em tempos, diz-se, de pós-modernidade, só no que pude pensar foi neste ato sublime de união entre duas classes sociais tão opostas: o assalto.
Não fossem todos os fatores imagináveis somados ao fato de ela não vestir-se tão bem como ele, estes dois formosos jovens poderiam ter se apaixonado. Havia neles uma coisa em comum: cada qual morava em um planeta.
Na educação dele influenciaram as revistas de educação, as orientadoras psicopedagógicas da escola onde estudou e os programas educativos da TV por assinatura. Na dela, a escola sem biblioteca, o tio revendedor de crack e a pouca atenção da mãe que cuidava de mais cinco filhos pequenos.
Viveram suas infâncias ao mesmo tempo, mas não era de infâncias como a dela que se falava nos comerciais de Nescau. Ele também era de certa forma excluído, na lista dos mais procurados não havia nenhum parente.
Então, ela sussurrou que ele passasse o relógio e todo o dinheiro que levava na carteira. Ele pôde sentir o seu mau cheiro e apenas o medo impediu-o de vomitar. Ela sentiu seu perfume e ele era tão belo quanto os meninos dos seriados TV.
Na escola que ela freqüentou quando criança, as aulas eram improdutivas e o que mais se aprendia era a física relacionada à velocidade e peso das bolinhas de papel. Na hora da merenda, feijão de terceira qualidade. Para ela, a comida era gostosa e, muitas vezes, a melhor parte de ir para a aula. À tarde, pipa nas ladeiras do morro onde morava uma amiga sua ou atirar pedra no esgoto a céu aberto, em frente a sua casa. Algumas vezes, ela nem dormia em casa e sua mãe parecia nem perceber.
Na escola dele, professores especializados ensinavam brincando e as bibliotecas eram projetadas para se mostrarem sedutoras aos olhos do futuro da humanidade. Ir para a aula só era chato porque o fazia perder algumas horas em que poderia estar na internet. As suas navegações na internet eram restringidas por seus pais, que o julgavam jovem demais para ter contato com todo tipo de imagens horrorosas que a web pode oferecer. Para ocupar o restante do dia, ele ainda fazia inglês e natação.
Quando ela colocou os pertences no bolso, falou-lhe ainda que se gritasse ganharia um corte na garganta. Então, abaixou o caco de vidro com que o ameaçava e saiu em disparada para o lado oposto de onde viera.
Ele ficou parado, soluçando em estado de choque. Estava apenas passeando inocentemente pela praia. Nunca antes, alguém no mundo sofrera tamanha injustiça.
Naquela tarde, o pai dele demitiu mais seis empregados com cinco filhos cada.
sábado, agosto 23, 2008
Ausência
Eu deixarei que morra em mim o desejo
de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa
de me veres eternamente exausto
No entanto a tua presença é qualquer coisa
como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto
e em minha voz a tua voz
Não te quero ter porque
em meu ser está tudo terminado.
Quero só que surjas em mim
como a fé nos desesperados
Vinicius de Moraes
quarta-feira, agosto 20, 2008
O Braço
Sinto-me como Dominic Molise em 1933 foi um ano ruim, de Fante. A única prova de que estou viva é O Braço. Não me deixa nunca esquecer de sua existência. Ele é no momento a única coisa que realmente faz sentido. Seu sentido é doer. Talvez não seja o melhor dos sentidos, mas ao menos ele tem um. É por Ele que minhas noites tornam-se insones e a varanda me observa divagando durante horas. Foi por causa Dele que tanto pensei até decidir por um peixe colorido que me faça companhia e por uma flauta doce. Doce sonho que não vou realizar. Foi segurando Ele noite destas sentada na janela que resolvi reconciliar-me com uma amizade perdida por amor; e me afastar de outra, apenas até que os sentimentos desembaracem o nó em que eu lhes transformei. Uma pena. O Braço saberia o que fazer, decidido como é a doer quando bem lhe convém.
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