Sentada no meio do mundo.
No canto de um bar de rodoviária. Estava lá
encolhida. Tão cercada de pessoas como jamais esteve.
Há muito mais pessoas, medos e maravilhas do que previu
sua imaginação infértil,
pequena e branca.
Já se sentiu tão só, nunca tão branca.
Sente-se mal por sentir-se mal e sua discrição berra aos olhos dos que passam.
Branquidão solitária fazendo anotações
misteriosas na capa de uma revista
espera amedrontada o primeiro expresso
que a leve ao seu reduto cor cor de rosa.
Porque nesta cidade tão grande
cheia de coisas inimagináveis,
não há lugar para branquelos dos pinduricalhos dourados (bem feito pra eles).
19h45 e está indo embora a branquela dos pinduricalhos
agarrada a seu travesseiro
sob quatro milhões de pares de olhos.
Com medo, muda, sozinha.
Todos reparam nela.
quarta-feira, julho 23, 2008
Rua de Montarroio
Não sei do que fugíamos.
Dizer que era da vida parecia
demasiado lírico, demasiado verdadeiro
- e a vida raramente aproveita a um poema.
Seja como for, a cidade
predispunha-se, aceitava calmamente
pequenos gestos de ternura,
delírios de morte apenas.
Zé dos Ossos, Trianon - os nomes
que decorei, enquanto fugíamos
da calúnia dos vinte anos.
As tardes no jardim, um pouco lúgubres,
prenunciavam a costumeira subida:
jantávamos os dois por setecentos escudos,
mesmo ao lado da taberna que não tinha mesas.
Saía barato, o amor. Por não sabermos
ainda, que teríamos de pagar a vida inteira
com juros aziagos e versos de demora.
~Manuel de Freitas~
segunda-feira, maio 26, 2008
Amores são como livros
Amores são como livros. Uns maiores, outros menores; alguns profundos, outros mais superficiais. Há aqueles que lemos quando pequenos logo que aprendemos a ler e que nos acompanham por toda a vida; há os que lemos há muito tempo e reencontramos inusitadamente, acompanhados de uma avalanche de lembranças. Algumas pessoas encontram livros perfeitos, livros feitos para elas. Em minha estante cada livro possui seu lugar definido, especial... Às vezes me pego em frente a eles, percorrendo com os olhos seus títulos, lembrando suas histórias, analisando o que cada um me ensinou, me trouxe de novo. Houve os que me obriguei a ler, apenas para não me sentir derrotada; houve os que devorei; os de páginas perfumadas; os simples, porém profundos; há os de cabeceira; os engraçados; os que me fizeram chorar; os retóricos; os demagógicos; os ideológicos; houve os que li ao mesmo tempo; os que duraram apenas uma madrugada; e houve a Bíblia.
Há pessoas que nunca aprenderam a ler, não conheceram outros mundos, outras formas de pensar, não ousaram. Conheço algumas que afirmam não precisar, dizem viver bem, dizem que bastam as orelhas de um livro ou outro. Pode ser que elas sejam felizes a maneira delas. Eu não conseguiria viver assim. Quero ler livros em todos os idiomas, com páginas de todas as cores, de vários autores, tempos, contextos; quero fotos coloridas e em preto e branco, livros de artes, música, política e cinema; quero livros que me façam imaginar as coisas mais inimagináveis e confrontar meus próprios eus, muitas vezes, infinitas vezes. Quero livros, todos os livros do mundo!
Há pessoas que nunca aprenderam a ler, não conheceram outros mundos, outras formas de pensar, não ousaram. Conheço algumas que afirmam não precisar, dizem viver bem, dizem que bastam as orelhas de um livro ou outro. Pode ser que elas sejam felizes a maneira delas. Eu não conseguiria viver assim. Quero ler livros em todos os idiomas, com páginas de todas as cores, de vários autores, tempos, contextos; quero fotos coloridas e em preto e branco, livros de artes, música, política e cinema; quero livros que me façam imaginar as coisas mais inimagináveis e confrontar meus próprios eus, muitas vezes, infinitas vezes. Quero livros, todos os livros do mundo!
A partida
Hoje nós temos que aproveitar a noite, meu amor. Não me deixe partir porque eu não pretendo voltar. Não tão cedo. Quando o dia clarear vou embora para uma cidade bem longe e grande. Não, não pense que não vou voltar por não haver meios; talvez você não entenda, nem lhe peço isso, eu apenas não vou querer voltar. Conhecerei pessoas novas, vou me apaixonar mais uma vez – e mais outra, e mais outra...
A saudade que sentirei de ti e de tudo o que há por aqui provavelmente deixará meu coração apertado às vezes. Não é que eu não vá ter vontade, mas tão cedo eu não vou querer voltar. Não me peça para explicar mais, é um pressentimento e eu não costumo errar.
Então não me deixe ir embora hoje. Vamos a qualquer lugar. Conte-me de você, escute com paciência os meus infinitos e estridentes argumentos. Depois sorria para mim. Faça com que eu tenha vontade de me esconder atrás de você e me diga alguma coisa que me faça olhar-te com olhos esbugalhados de admiração.
Ande bem devagar ao meu lado. Vamos fingir que essa é a velocidade normal. Vamos prolongar cada passo, cada segundo. Porque amanhã eu vou embora. Não poderei levar tudo que tenho. É certo que não são muitas coisas, mas não vou conseguir carregá-las. Só vou levar o que gosto mais, com excessão de você, porque eu não quero que você vá – e nem você vai querer ir. Sei que todos os objetos que amo e que me são tão caros vão acabar cada qual na casa de alguém indiferente – e desimportante. E um dia eu vou descobrir que aquele livro maravilhoso tem então um bode, versão desenho de criança, desenhado na contracapa, cheio de pó no fundo da estante de uma casa qualquer.
Por esse tempo você vai achar que me esqueceu. Mas um dia, depois de muitos anos, eu vou voltar. Alguém vai morrer e eu vou ter que voltar. E então eu vou te fazer lembrar daqueles dias e de como nós conseguíamos andar devagar; vivíamos em um balão colorido, flutuando pelo céu, a mil por hora. Você vai, não sem antes hesitar, perguntar-me por que nunca voltei. Vai perguntar por que eu te deixei envelhecer. E eu vou responder que não sei. O fato é que nunca voltei.
Eu não voltarei, meu amor. Amanhã vou embora para uma cidade bem grande. Que fica muito longe.
A saudade que sentirei de ti e de tudo o que há por aqui provavelmente deixará meu coração apertado às vezes. Não é que eu não vá ter vontade, mas tão cedo eu não vou querer voltar. Não me peça para explicar mais, é um pressentimento e eu não costumo errar.
Então não me deixe ir embora hoje. Vamos a qualquer lugar. Conte-me de você, escute com paciência os meus infinitos e estridentes argumentos. Depois sorria para mim. Faça com que eu tenha vontade de me esconder atrás de você e me diga alguma coisa que me faça olhar-te com olhos esbugalhados de admiração.
Ande bem devagar ao meu lado. Vamos fingir que essa é a velocidade normal. Vamos prolongar cada passo, cada segundo. Porque amanhã eu vou embora. Não poderei levar tudo que tenho. É certo que não são muitas coisas, mas não vou conseguir carregá-las. Só vou levar o que gosto mais, com excessão de você, porque eu não quero que você vá – e nem você vai querer ir. Sei que todos os objetos que amo e que me são tão caros vão acabar cada qual na casa de alguém indiferente – e desimportante. E um dia eu vou descobrir que aquele livro maravilhoso tem então um bode, versão desenho de criança, desenhado na contracapa, cheio de pó no fundo da estante de uma casa qualquer.
Por esse tempo você vai achar que me esqueceu. Mas um dia, depois de muitos anos, eu vou voltar. Alguém vai morrer e eu vou ter que voltar. E então eu vou te fazer lembrar daqueles dias e de como nós conseguíamos andar devagar; vivíamos em um balão colorido, flutuando pelo céu, a mil por hora. Você vai, não sem antes hesitar, perguntar-me por que nunca voltei. Vai perguntar por que eu te deixei envelhecer. E eu vou responder que não sei. O fato é que nunca voltei.
Eu não voltarei, meu amor. Amanhã vou embora para uma cidade bem grande. Que fica muito longe.
domingo, maio 25, 2008
Agora vou ali e não volto. Como já não voltei, outras vezes. Se você vai sentir saudades não sei. Não importa. Novamente seremos eu, meu suco de uva e meu prato de macarrão nos almoços de domingo que nunca se cansam de retornar. Sempre eles, os domingos. Mas tudo bem. Vou ali e não volto. É necessário. Não sei de ti. É necessário pra mim. Tenho uma estante cheia de livros e muitas pessoas que às vezes me amam pra me consolar. Vou ali e não volto. Obrigada e não esqueça de escovar os dentes antes de dormir.
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