terça-feira, novembro 26, 2013
Mais alto do que se pode ver
Primeiro o arrancaram de sua pátria para viver como bicho do outro lado do mar.
Sugaram até sua última gota de sangue.
Depois expulsaram seus filhos para o alto.
Tão em cima que doía olhar.
E era preciso descer todo dia pra ganhar o pão.
E muitas vezes não tinha trabalho pra quem vivia lá.
E às vezes era preciso roubar.
E por vezes era melhor se drogar.
Mas então todo o chão já não bastava e os ricos queriam subir.
(Dizia-se que queriam a vista, mas desconfiei que estivessem de olho era naquele morro de amor).
Agora mandam seus netos descerem.
E não basta tirar-lhes a vida, a casa, o morro...
Tentam apagar sua história.
Faz todo sentido.
Criminosos apagam vestígios.
terça-feira, agosto 20, 2013
Zênite
Hoje aprendi uma nova palavra
meio estranha
e meio linda
zênite
o ponto mais alto do céu
– e ele me provou com um desenho científico
Descobri onde fica
o fecha parênteses
do quanto eu te gosto
(
segunda-feira, agosto 05, 2013
A velha torta comendo pipoca
Eu voltava para casa em um ônibus
– este transporte de gado, bucólico, cheio de bois cansados que seguem a matadores
– e na minha frente havia uma velha torta comendo pipoca. Alguma coisa tinha
torcido a cara dela. O tempo, o vento, uma doença, um marido machão. Com a boca
localizada no canto inferior esquerdo do rosto ela mastigava e mastigava e
mastigava; uma pipoca atrás da outra. Um dos seus olhos também era repuxado. Dava
pra ver um pouco da parte vermelha. De repente ela me surpreendeu vidrada em
sua imagem. Disfarcei muito mal enquanto pensava quem a amava, quantos filhos
havia posto no mundo, de quantos homens havia partido o coração, o que a
emocionava. Mais uma espiada. Ela tinha
um jeito caricato de velha carrancuda, mas estava disfarçada com roupas
normais. Usava uma blusa que me fez lembrar uma tia, talvez a mim no futuro. Desci.
A velha torta ainda mastigava pipoca.
quinta-feira, maio 23, 2013
Nova morada
Na janela do novo apartamento vejo um pedacinho importante da cidade. Hoje ele está estranhamente calmo. Gosto deste pedacinho. Já gostava antes de imaginar que um dia me mudaria para cá. Acho que porque ele parecia um trecho inexplorado, um tanto fora da rota, onde havia uma pizzaria em que ninguém nos encontraria. Tenho sentido falta de escrever, mesmo que escrever seja o que faço da vida. Na verdade, tenho sentido falta de pensar e escrever pra dentro (repetindo palavras livremente). Não sobra muito tempo para isso. A vida acaba por nos manter permanentemente embriagados. Só às vezes sobra espaço para momentos de insanidade. Minha cabeça ainda está tentando lidar com tamanha calma, mesmo em meio à barbárie (falo da vida e do apartamento, silencioso em meio ao caos). Não faço ideia de porque ela anda tão tranquila (desta vez falo da vida). Talvez porque eu tenha dividido meu tempo com as pessoas certas, tomado as decisões certas, me dedicado às coisas que realmente gosto, amado na medida certa, em forma e quantidade.
A nova casa é grande e calma, assim como anda a vida. Nesse momento eu não queria estar em outras.
domingo, março 24, 2013
Luz no coração
Contou que batia uma certa angústia.
Aquela de domingo, sabe?
Devia ser o tempo.
Respondeu-lhe assim:
"Os passarinhos tão cantando
Vai abrir".
Foi como luz no coração.
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